Após voltar da Venezuela, Amorim discute paz entre Rússia e Ucrânia nesta quarta (31)
Assessor da Presidência receberá enviado especial chinês; Brasil e China negociaram em maio entendimentos sobre resolução para a guerra defendendo negociação política para que a paz seja alcançada
Um dia após voltar ao Brasil depois de acompanhar as eleições na Venezuela, o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Celso Amorim, recebe, nesta quarta-feira (31), o enviado especial da China para assuntos da Eurásia, Li Hui. Na pauta está a guerra entre Rússia e Ucrânia.
Li Hui participou de reunião de trabalho com a equipe de Amorim na terça-feira (30). Nesta quarta, será recebido pelo assessor especial em uma audiência no Palácio do Planalto.
O enviado especial da China é um ex-diplomata experiente e que serviu como embaixador na Rússia de 2009 a 2019. Li Hui é o oficial chinês de mais alto escalão a ter viajado para Kiev desde o início da invasão à Ucrânia.
Naquela oportunidade, o enviado especial chinês se encontrou com Zelensky e outros altos funcionários ucranianos. Li Hui reiterou que a China estava disposta a servir como mediadora da paz para resolver a crise ucraniana.
“Não há panaceia para resolver a crise. Todas as partes precisam começar por si mesmas, acumular confiança mútua e criar condições para acabar com a guerra e se engajar em negociações de paz”, disse na ocasião Li, de acordo com a leitura.
Negociação pela paz
Os governos de Brasil e China negociaram em maio entendimentos sobre uma resolução para a guerra entre Rússia e Ucrânia, defendendo negociação política para que a paz seja alcançada. As nações também pediram o apoio da comunidade internacional.
O acordo firmado entre os dois países foi considerado um marco importante nas relações diplomáticas diante da continuidade da guerra. A avaliação do governo brasileiro é a de que a China é a única potência global com peso capaz de exercer influência sobre Moscou.
A assinatura do documento foi vista no governo brasileiro como um recado aos países que recusam as negociações e insistem em optar pela guerra como solução para o conflito.
Brasil e China defendem que três princípios sejam seguidos para que haja a desescalada do conflito:
- a não expansão do campo de batalha;
- a não escalada dos combates; e
- a não inflamação da situação por qualquer parte.
Em dezembro do ano passado, Amorim afirmou, em carta enviada ao encontro de Assessores de Segurança Nacional, que a vontade de Rússia e Ucrânia em participar de negociações em busca da paz era fundamental para o sucesso dos esforços diplomáticos.
Os dois países defenderam ainda a realização de uma conferência internacional de paz que seja reconhecida tanto pela Rússia quanto pela Ucrânia, com participação igualitária de todos os países relevantes nas tratativas e uma discussão justa de todos os planos de paz.
A defesa por um encontro internacional de paz com a presença dos dois países em guerra foi uma resposta à conferência que a Suíça realizou em junho e que contou com a participação da Ucrânia, mas sem representação da Rússia. A cúpula terminou sem consenso.
O presidente Lula foi convidado para o evento, mas recusou, alegando que nenhuma cúpula conseguirá chegar à paz sem o envolvimento dos russos na mesa de negociações.
Ucrânia espera por mais
Em entrevista à CNN em junho, a vice-ministra de Relações Exteriores da Ucrânia, Iryna Borovets, afirmou que o país é grato ao Brasil e à China por tentarem assumir o papel de mediadores do fim da guerra, mas gostaria de vê-los mais atuantes na “fórmula de paz da Ucrânia”.
“Para nós, seria mais proveitoso. Porque o Brasil e a China são países enormes, importantes e têm peso na política internacional e os vemos como parceiros neste processo de estabelecer paz, de acordo com a ‘fórmula de paz da Ucrânia’”, disse a vice-chanceler.
“O que não vimos nos seis pontos da declaração do Brasil e da China é a menção da soberania e integridade territorial da Ucrânia. E para nós isso é muito importante. Era algo que precisava ser mencionado de maneira clara. Apesar de os dois países já terem expressado de outras formas, nas Nações Unidas e em conversas bilaterais, por exemplo. Mas gostaríamos de ver isso de maneira mais clara na declaração conjunta”, afirmou Iryna Borovets.
A proposta de paz ucraniana trata primordialmente de três pontos: segurança nuclear, segurança alimentar e aspectos humanitários, como troca de prisioneiros de guerra e libertação de adultos e crianças ucranianos que foram capturados pela Rússia.
“A vítima de agressão, e não o agressor, é quem deveria definir os termos futuros para a paz. E a Ucrânia tem direito moral a isso porque hostilidades de guerra estão acontecendo em territórios ucranianos e é a nossa população que está morrendo todos os dias, não apenas militares, mas civis e crianças”, disse.
“Esses são os pontos universais sobre os quais a comunidade internacional precisa se debruçar. Depois disso, haverá o processo de discussão do grande acordo por partes. Então, eventualmente, um dia, uma segunda conferência mundial pela paz deve acontecer onde poderemos convidar algum representante da Rússia”, afirmou a vice-ministra das Relações Exteriores ucraniana.