Raphael Vidal: o nome por trás da revitalização do Largo da Prainha, no Rio
Raphael ajudou a transformar o Largo da Prainha em um dos principais polos turísticos do centro carioca


“Toma aqui a chave, depois a gente conversa”, Raphael Vidal ouviu do dono do imóvel do Bar do Tricolor assim que o empreendimento ganhou um ponto final, em meados de 2021. Desesperado para que ele assumisse o ponto — no Largo de São Francisco da Prainha, mais conhecido como Largo da Prainha, no centro do Rio de Janeiro —, o proprietário nem sequer combinou o valor do aluguel naquela conversa. Foi só em 2025, por sinal, que os dois formalizaram a locação por meio de um contrato.
O investimento inicial de Vidal se resumiu à compra de uma daquelas churrasqueiras “a bafo”, por R$ 450. Nela, passou a preparar uma das especialidades de seu pai, cupim no bafo. Virou o carro-chefe do botequim, apropriadamente batizado de Bafo da Prainha.
Inaugurado em 2021, o empreendimento ajudou a transformar o Largo da Prainha em um dos principais pólos turísticos da região. “Esse bar tomou uma proporção que nunca havia passado pela minha cabeça”, diz Vidal, 42 anos, que se viu obrigado a alugar mais quatro imóveis, ao lado, para ampliar o negócio. “No início eram 12 mesas e agora são 70”.
O imóvel do primeiro botequim dele, o Casa Porto, também no Largo da Prainha, lhe chegou às mãos de maneira ainda mais inesperada. Ele estava tomando um chope na Praça Mauá, em meados de 2013, quando entabulou conversa com o então locatário do imóvel. O espaço fazia as vezes de depósito e era sublocado, eventualmente, para festas. Na mais recente delas, alguém roubara uma das portas, o que explicava o mau humor do locatário naquele dia. Conversa vai, conversa vem, os dois se dirigiram até a imobiliária do imóvel. Vidal saiu de lá como o novo locatário. “O aluguel custava uns R$ 400 por mês”, recorda ele, que na época trabalhava como produtor cultural do Museu de Arte do Rio, o MAR.
Depois de se desligar da instituição, ele transformou o antigo depósito na Casa Porto, que funcionou exclusivamente como centro cultural de 2013 a 2018. A ligação dele com esse universo vinha de longe. Ele cresceu na Freguesia, bairro na Zona Oeste do Rio, e saiu de casa aos 13 anos de idade. Sua meta, àquela altura, era se transformar em escritor e editor de livros. Formado em filosofia pela UFRJ, debutou no mundo das letras trabalhando em livrarias. Chegou a coordenador editorial da Pallas Editora.
Em 2008, mudou-se para o Morro da Conceição, vizinho do Largo da Prainha, e, quando se deu conta, se converteu em um dos principais responsáveis pela organização das festividades coletivas da vizinhança — do réveillon ao bloco de carnaval local. Em 2012, produziu no Morro da Conceição o evento que batizou de Fim de Semana do Livro no Porto (FIM). “Coloquei os escritores sentados nos botequins para eles falarem sobre suas obras e também sobre samba, macumba e o que mais surgisse”, lembra. O sucesso do evento, que se resumiu a uma única edição, o encorajou a montar a Casa Porto.
Em 2018, Vidal se enredou em dívidas a ponto de receber duas ordens de despejo — para dar adeus ao imóvel da Casa Porto e à própria residência. Para levantar algum dinheiro, passou a preparar moela à milanesa e oferecer o prato a torto e a direito. “Foi só o que eu comi, praticamente, ao longo de toda a faculdade”, informa. A ideia da venda do prato deu mais do que certo. E ele não só manteve os dois endereços como transformou a Casa Porto em botequim daquele ano em diante.

O negócio atravessou a pandemia sem grandes dificuldades graças a duas ideias. Uma delas foi criar a própria frota de entregadores para o delivery do botequim — Vidal arregimentou, ao todo, 18 mototaxistas que moram na região. “Fiz isso porque o raio de entrega do iFood e do Uber Eats, então na ativa, era de 8 quilômetros”, lembra. “No meu caso, isso abarca parte da Baía de Guanabara e metade do centro, que estava às moscas”. A outra ideia foi a instauração do chamado pendura invertido, por meio do qual ele amealhou uma boa quantia entre os clientes — em troca, eles receberam créditos para consumir mais adiante. “Permitiu que eu antecipasse três meses de salário dos 19 funcionários que eu tinha na época, e em dois momentos da pandemia”, afirma.
Vidal participou de uma das mesas-redondas da 4ª edição do SindNews, em maio do ano passado. O evento é organizado pelo SindRio, o sindicato de bares e restaurantes do Rio de Janeiro, e tem o propósito de discutir desafios e oportunidades do setor de alimentação fora do lar. O grande anfitrião do Largo da Prainha subiu ao palco ao lado de Mariana Paes, gerente de marketing do Gurumê; de Bianca Faria, idealizadora da agência LADO B Criação; e eu [Daniela Salles] fui o responsável pela mediação.
O tema da mesa-redonda era “Bares, restaurantes e o mundo digital”. Segundo Vidal, o mais importante na hora de alimentar o Instagram de estabelecimentos do tipo é a espontaneidade. “Assim os clientes vão saber exatamente o que vão encontrar”, argumenta ele, que já chegou a postar até sobre a limpeza da fossa de uma das casas. “Essa falta de cerimônia foi criando uma relação muito forte com os frequentadores”. Não à toa, cada um dos endereços dele tem dezenas de milhares de seguidores.
“A aposta de empresários do ramo em regiões que estavam relegadas a segundo plano é muito positiva para o Rio de Janeiro”, diz Fernando Blower, que preside o SindRio. “É um movimento que ajuda a criar novos hubs de entretenimento em áreas onde quase ninguém cogitava ir para se divertir. Vidal ajudou a ressignificar o Largo da Prainha, o que é benéfico não só para ele, mas também para os estabelecimentos que já estavam por lá e para os que poderão surgir. Hoje muita gente acha viável montar bares e restaurantes no centro do Rio de Janeiro por causa do Vidal e do chef Lucio Vieira, do grupo Lilia”.
Três anos atrás, Vidal inaugurou o restaurante Dois de Fevereiro, também no Largo da Prainha. Especializado em comida baiana, o endereço é comandado, desde 2024, pelo chef João Diamante. Em novembro último, entrou em cena o Capiau, no Beco das Sardinhas, na mesma região. É tido como o primeiro botequim em ambiente urbano a dispor de fogão à lenha. Um dos destaques do cardápio são as carnes na lata, confitadas em gordura. E há mais uma inauguração à vista. Daqui dois meses, se tudo der certo, será inaugurada a cervejaria Cotovelo, na Rua da Carioca, também no centro. Trata-se de uma parceria entre Vidal e as cervejarias Búzios e Tio Ruy. “É para quem gosta de beber com o cotovelo encostado no balcão”, diverte-se o empresário, que já tem cerca de 60 funcionários e atende mais de 22 mil clientes por mês.
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