Paralisia de Bell: entenda os sintomas, diagnóstico e tratamento do problema
Sinais incluem fraqueza dos músculos de um lado do rosto, paralisia da pálpebra superior que leva à dificuldade para piscar e desvio da boca


A inflamação do nervo facial responsável por controlar a musculatura do rosto causa uma condição chamada paralisia facial periférica ou paralisia de Bell.
A incapacidade do nervo de se comunicar com os músculos do rosto causa a paralisia da face com sinais e sintomas que incluem fraqueza dos músculos de um lado do rosto, paralisia da pálpebra superior que leva à dificuldade para piscar e desvio da boca para o lado contrário ao da paralisia.
A cantora Gabi Melim disse no último domingo (1º) em suas redes sociais estar com este quadro e que o lado direito do rosto não está se movendo, mas ela já está em tratamento médico. A artista diz que a paralização parcial do rosto foi causada por ansiedade, porém a neurologista Polyana Piza, do Hospital Israelita Albert Einstein, afirma que não dá para elencar o problema mental entre as causas da paralisia de Bell.
“O estresse pode trazer alterações de força de um lado do corpo que pode imitar a paralisia de Bell ou um AVC, mas são outros quadros. A paralisia de Bell é especificamente uma alteração do nervo facial e isso o estresse não consegue provocar”, descreve a especialista.
A psicóloga Eliana Santos de Farias, coordenadora do curso de psicologia do Centro Universitário Braz Cubas, explica que a relação pode ser um pouco mais indireta: “a ansiedade crônica pode enfraquecer o sistema imunológico, reduzindo a capacidade do corpo de combater infecções virais”, descreve. “Embora a ansiedade não seja uma causa direta da paralisia de Bell, ela pode atuar como um fator contribuinte ou agravante”, finaliza.
Causas da paralisia de Bell
O acometimento do nervo facial pode ser causado por infecções virais e condições imunológicas associadas ao sistema de defesa do organismo.
“Hoje, a teoria mais aceita é que a lesão que causa inflamação do nervo facial, com interrupção do seu funcionamento, ocorre por infecções virais de diversos tipos. O vírus que mais frequentemente leva a paralisia de Bell é o herpes simples, o mesmo vírus que causa a herpes labial e a herpes genital”, afirma o médico neurologista Rodrigo Meirelles Massaud, coordenador médico do Programa Integrado de Neurologia do Hospital Israelita Albert Einstein, em comunicado.
Segundo o neurologista, outros vírus também podem causar a paralisia de Bell, incluindo o herpes-zóster, que causa a catapora, o citomegalovírus e vírus Epstein-Barr, responsável pela mononucleose.
Sintomas da paralisia facial periférica
A inflamação leva ao inchaço do nervo e dos pequenos vasos sanguíneos ao redor que, por serem cercados pelos ossos do crânio, são comprimidos e interferem na capacidade do nervo em conduzir os impulsos elétricos.
“Os sintomas podem se caracterizar por fraqueza do músculo de um dos lados do rosto, dificuldade para fechar os olhos, para piscar, para sorrir, para enrugar a testa. Além disso, dor atrás dos olhos, dificuldade para sentir o gosto de alguns tipos de alimentos”, explica o médico neurocirurgião e professor livre-docente do Hospital das Clínicas de São Paulo, Fernando Gomes.
Segundo Gomes, a paralisia também pode levar ao ressecamento do olho e a mudanças no padrão de salivação com o aumento da saliva.
“O paciente pode apresentar dificuldade para mastigar, dor na parte de trás da orelha, na região retroauricular, sensibilidade a sons mais altos, sensação de que a face está sendo torcida em direção a um dos lados. Além de problemas na hora de articular as palavras e da própria dicção e até mesmo dor de cabeça”, afirma.
É comum que pacientes com o quadro tenha dificuldades significativas na comunicação, expressão facial e no controle do olho afetado. “Isso pode afetar a autoestima, a interação social e até mesmo a capacidade de realizar atividades cotidianas, como comer e beber”, reforça a neurologista Polyana Piza.
Diagnóstico
O medo de um acidente vascular cerebral (AVC) é comum entre os pacientes que sofrem de paralisia de Bell pela primeira vez.
“O maior medo do paciente com paralisia de Bell é a preocupação de estar apresentando um derrame. Algumas pistas clínicas tornam menos prováveis um derrame, entre elas: o fato de não haver paralisia em outra região do corpo, na paralisia de Bell a paralisia atinge a parte superior do rosto e no derrame geralmente a boca entorta sem atingir o olho”, afirma Massaud.
“Apesar das pistas clínicas é importante procurar um médico com urgência para afastar causas graves de lesões neurológicas e iniciar o tratamento de maneira precoce”, completa.
De acordo com os especialistas, a identificação da paralisia Bell é realizada a partir de um diagnóstico clínico e não depende de exames complementares.
“O diagnóstico geralmente é feito de uma maneira clínica, através da própria observação e do exame neurológico. Exames auxiliares de neuroimagem, como a ressonância magnética ou uma tomografia de crânio, podem ser utilizados para se descartar um outro tipo de problema”, afirma Gomes.
“Algumas sorologias para doenças infecciosas causadas por vírus e bactérias podem ser úteis. O exame de eletroneuromiografia pode ajudar a analisar o estado do nervo para casos que demorem a melhorar principalmente naqueles que demoram mais de três meses”, completa Massaud.
Tratamento e prognóstico
A paralisia de Bell é uma condição temporária, com recuperação em alguns dias ou semanas. O tratamento pode ajudar a reduzir a duração dos sintomas. “O prognóstico pode variar de pessoa para pessoa, mas muitos pacientes se recuperam completamente ao longo do tempo”, considera a neurologista Piza.
“Alguns medicamentos, como por exemplo antivirais e anti-inflamatórios hormonais como os corticoides, podem ser utilizados para acelerar o processo de reabilitação e cura”, afirma Gomes. Segundo o neurocirurgião, a fisioterapia também contribui para acelerar a recuperação dos pacientes.
O neurologista Massaud alerta para os cuidados com o olho devido aos impactos da paralisia na capacidade de piscar.
“Existe um risco de lesões oculares permanentes da córnea, que é a cobertura transparente e protetora do olho, caso o olho fique excessivamente seco. Você pode usar lágrimas artificiais para manter o olho úmido. Se o seu olho não fechar completamente, você deve protegê-lo durante o dia com óculos. Oclua a pálpebra superior ao dormir para evitar lesões da córnea”, afirma.
*Com apuração de Nathalie Ayres