“Não sou um flamingo, sou gente”: transexuais encaram tabus em consultas médicas
Mulheres e homens trans enfrentam despreparo e preconceito ao buscar atendimento em saúde


A ida a um consultório médico para uma consulta ou um posto de saúde para saber se os sintomas são de gripe ou Covid-19 pode ser simples para a maioria da população. Mas para uma boa parcela de homens e mulheres, não é.
“Minha mãe chamou a polícia porque a médica se recusava a me chamar pelo meu nome social e colocar na ficha, o que é lei”, afirmou Mayla Phoebe, de 20 anos, que passou pela situação durante o processo de transição sexual na cidade onde nasceu, a pequena Tapira, em Minas Gerais.
“Pensei em desistir da vida, amputar meu órgão genital”, disse a jovem sobre as experiências em atendimentos médicos até fazer a cirurgia de readequação sexual.
Ela fez o procedimento juntamente com a irmã, Sofia Albuquerque, há quase um ano, com um médico particular — o tratamento até a operação também foi feito no setor privado.

Ambas têm o nome social no documento de identidade desde os 17 anos — em 2018, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que a alteração de registro civil por travestis e transexuais pode ser feita sem que seja necessária a realização de procedimento cirúrgico ou transexualizador.
“Não consegui um endocrinologista e entrei na Justiça. Fui encaminhado para a melhor especialista da cidade. Não entreguei a ordem judicial e entrei com meu nome social, ela nem reparou. Me viu como um homem cis [que nasceu com o órgão genital masculino e se identifica com o mesmo gênero]”, conta Kaio Lemos, 43, de Fortaleza, doutorando em ciências sociais e presidente do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (Ibrat).
“Falei que sou pessoa trans, e ela disse que não sabia o que era. Se recusou a fazer a hormonização, e mostrei a ordem judicial”, diz Kaio.
A partir de 2022 a transexualidade deixa a lista de transtornos mentais da CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas de Saúde) e passa a fazer parte do rol de condições relacionadas à saúde sexual.
A mudança na CID foi uma reivindicação dos movimentos da população em todo o mundo.
“É louvável essa conquista do movimento trans retirar a condição dos transtornos mentais. Mas vemos de uma forma crítica porque permanece no manual”, afirma Arthur Sampaio, psicólogo e integrante da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia (CFP).
Segundo o especialista, também um homem trans, a justificativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) para manter a transexualidade na CID é porque pessoas trans têm demandas nos sistemas de saúde, como cirurgias de redesignação sexual, mastectomia [retirada de seios], hormonização [terapia hormonal com testosterona no caso de homens trans e estrogênio para mulheres trans], entre outros procedimentos.
“Quando olhamos de maneira mais crítica, ainda é uma luta a vencer. Existem outros grupos populacionais que demandam do sistema de saúde e não estão na CID”, concluiu Arthur.
A medida, tomada em 2018 pela OMS, determinou um prazo de três anos para os países se adaptarem.
Outras razões esfriam a comemoração dessa medida por transexuais no Brasil neste 29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans.
A qualidade no atendimento na área da saúde a essa população, no setor privado ou no Sistema Único de Saúde (SUS), é inadequada. O agendamento de uma consulta e a marcação de tratamentos mais complexos, como os pós-cirúrgicos, estão entre os obstáculos que uma pessoa trans enfrenta em busca de atendimento médico.
Antes da revisão da CID, o Conselho Federal de Psicologia lançou uma resolução em 2018 que dispensava a necessidade de apresentação de laudo psicológico para que se respeitasse o nome da pessoa da forma como ela se identificava.
No entanto, o uso de nomes e pronomes no gênero errado ainda é um dos primeiros entraves e um dos mais incômodos.
Parece que sou um flamingo, não uma pessoa. Não tenho nome social, preciso de dinheiro ainda para mudar. É chato apresentar o RG. Me tratam como homem mesmo vendo que não condiz com a situação. Sou uma mulher
Gabriela Pieratti, estudante universitária de 22 anos
Inicialmente, ela buscou atendimento psicológico em clínicas credenciadas do plano de saúde que possui. Diante da dificuldade e do trauma, decidiu fazer a transição em um ambulatório da rede pública na Barra Funda, zona oeste de São Paulo.
“Minhas únicas queixas [no ambulatório público] são falta de medicamentos, que são caros, e pouca gente no atendimento. Me ajudam com tudo, me tratam bem, saio de lá com a autoestima lá em cima. Faço o tratamento há 13 meses, talvez faça alguma cirurgia, mas estou bem. Me acho gata.”
3 milhões no Brasil
Um estudo do Grupo de Estudos em Saúde Transgênero (Gestrans) da faculdade de medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp), divulgado no ano passado, identificou que o país tem cerca de 3 milhões de pessoas que se declaram trans ou não-binárias — que não se identifica com os gêneros feminino ou masculino.
Desse total, 85% dos homens transgêneros e 50% das mulheres trans afirmam que tem algum sofrimento com suas características corporais relacionadas ao gênero.
Especialistas alertam que o atendimento inapropriado à população trans afasta pacientes dos cuidados que necessitam com a saúde.
“Isso reforça a urgência de políticas públicas de saúde para esses indivíduos”, afirma a professora de medicina e coordenadora do Gestrans, Maria Cristina Pereira Lima.
A especialista também afirma que a mudança na CID é um avanço, mas ressalta que ainda há muito a se fazer para um tratamento igualitário na saúde para pessoas trans.
“Profissionais de saúde também reproduzem o estigma e o preconceito Que possam olhar de igual para igual para a pessoa trans vai demorar muito tempo. Quando falamos de profissionais de saúde, da segurança pública, de educação, temos de fazer um esforço ainda maior para virar essa chave”, diz a médica.

A coordenadora do ambulatório multiprofissional de identidade de gênero do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (Iede) da Fundação Saúde do Rio de Janeiro, Karen De Marca Seidel, ressalta que o acompanhamento psicológico e psiquiátrico no processo de transição é importante e necessário.
“O atendimento às pessoas trans é complexo. É preciso a saúde mental ajudando. Muitas vêm de dificuldades sociais, são vulneráveis, não têm emprego, precisam de assistência social também, de acolhimento. Vêm com comorbidades como depressão, de tentativas de suicídio, dependência química. Um especialista só não avalia isso.”
Automedicação e arrependimentos
A dificuldade no acesso ao tratamento específico para a condição de pessoas trans provoca problemas como a automedicação.
“Comprei a primeira caixa de hormônio clandestinamente. Nem sabia que era possível”, conta o mestrando Apolo Vicente, de 24 anos, de Feira de Santana (BA), que começou a fazer a transição, sem acompanhamento, aos 16 anos.
“Comecei a me relacionar com garotas e na primeira namorada entendi o que era identidade de gênero. Não esperei, já mudei o nome e comecei a hormonização”, explica o jovem, que tinha dificuldades para fazer o tratamento em um ambulatório destinado a transexuais em Salvador, o que se agravou na pandemia.
“É comum a automedicação [como o uso de silicone industrial entre mulheres trans] porque alguns profissionais não têm experiência ou acham bobagem [o atendimento a transexuais], e essa população não sente acolhimento para voltar. Quando isso acontece, é uma tragédia porque a pessoa vai atrás do que acha com amigos, faz automedicação. As consequências são seríssimas em todos os níveis”, diz Renata Azevedo, coordenadora-geral do Núcleo Trans da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
“Nossa bandeira é que as pessoas têm de ser acolhidas. Para uma população em busca de identidade, o nome importa muito. Recepcionistas serem treinados a usarem o artigo correto têm um peso muito grande”, afirma.
O médico catarinense José Carlos Martins, que realizou a cirurgia das gêmeas Mayla e Sofia em sua clínica, em Blumenau (SC), aponta que a falta de orientação e a falta de atendimento adequado levam pessoas trans a fazerem procedimentos dos quais vão se arrepender.
“Das minhas cirurgias, 20% são secundárias. Fizeram em outro lugar e me procuram para corrigir. Chegam desconfiadas, estão calejadas. Vieram de lugares, por exemplo, que pedem dinheiro adiantado, não dão recibo ou só recebem dinheiro. O cirurgião some”, conta o especialista, que já operou mais de 500 pessoas trans e dá palestras para outros médicos sobre o atendimento a essas pessoas.
“É preciso uma mudança de postura do médico. Faço palestras quase semanalmente, pessoas trans têm rosto e voz. Mesmo que ele não seja um cirurgião, que seja um pediatra, em algum momento vai esbarrar com um casal trans, por exemplo.”
O que diz o Ministério da Saúde
Procurado pela CNN, o Ministério da Saúde informa que “instituiu a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais” para “promover a saúde integral da população LGBT, eliminando a discriminação e o preconceito institucional e contribuindo para a redução das desigualdades e para consolidação do SUS como sistema universal”.
Cabe às secretarias de saúde locais gerenciar consultas, procedimentos, fármacos, exames e agendamentos. “Ao ministério cabe a habilitação de estabelecimentos e monitoramento das políticas de alta complexidade”, diz a nota da Saúde.
“As habilitações no processo transexualizador se dão tanto na modalidade ambulatorial — onde são realizados o acolhimento e acompanhamento por equipe multiprofissional e multidisciplinar e realização da hormonioterapia — quanto na modalidade hospitalar — onde são realizados procedimentos cirúrgicos para fins de adequação do fenótipo, bem como a redesignação sexual propriamente dita.”
O ministério afirma atuar “para a revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID) e instituiu a Câmara Técnica Assessora para a Gestão da Família de Classificações”.