Dia Mundial de Combate ao Câncer: falta de acesso e pandemia impactam diagnóstico
Identificação da doença em estágio inicial é fundamental para reduzir os riscos de complicações e aumentar as chances de cura
Nesta sexta-feira (4) é celebrado o Dia Mundial de Combate ao Câncer. A doença está entre as que mais matam no mundo, ao lado das doenças cardíacas, diabetes e acidente vascular cerebral (AVC).
O monitoramento do agravo no mundo é realizado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da OMS (IARC), que apresenta estatísticas a partir de indicadores de diversas plataformas em saúde.
De acordo com os dados do observatório, em 2020, foram registrados 592 mil novos casos de câncer no Brasil, incluindo câncer de pele não melanoma. O tipo de câncer mais incidente em 2020 no Brasil foi a câncer de próstata (97 mil novos casos), seguido de câncer de mama (88 mil novos casos), cólon e reto (55 mil novos casos), câncer de pulmão (40 mil novos casos) e câncer de tireoide (31 mil novos casos).
Em termos de mortalidade, 257 mil pessoas foram vítimas de câncer (excluindo câncer de pele não melanoma) no Brasil no ano de 2020. Câncer de pulmão foi o tipo que mais matou pessoas no país em 2020 (35 mil mortes), seguido dos cânceres de cólon e reto (26 mil mortes), mama (21 mil mortes), próstata (18 mil mortes) e estômago (16 mil mortes).
A desigualdade no acesso aos serviços de saúde, a pandemia de Covid-19 e a falta de informação impactam diretamente no atraso do diagnóstico e início do tratamento. A identificação da doença em estágio inicial é fundamental para reduzir os riscos de complicações e aumentar as chances de cura.
“Todas essas datas servem para lembrar aos pacientes e às pessoas saudáveis da importância dessa doença. Muitas vezes, é uma oportunidade para trazer a discussão para sociedade sobre aquilo que falta para melhorar o cuidado dos pacientes com câncer – e sem dúvida a prevenção é a melhor forma de combater o câncer”, destaca Rafael Aron Schmerling, líder médico do serviço de oncologia do Hospital do Coração (HCor).
De acordo com a União Internacional para Controle do Câncer (UICC), 70% das mortes por câncer ocorrem em países de baixa e média rendas. Condição social, nível educacional e fatores culturais, étnicos, de gênero e idade estão entre os aspectos que podem influenciar a conscientização sobre a prevenção do câncer, a realização de exames periódicos, bem como a dificuldade para se obter diagnóstico e tratamento.
“A equidade diz respeito à distribuição eficiente dos recursos de saúde considerando as necessidades do indivíduo. Esse objetivo será alcançado quando cada um tiver a oportunidade de atingir seu potencial pleno de saúde sem barreiras ou limitações criadas pela situação socioeconômica ou outras circunstâncias”, afirmou Ana Cristina Pinho, diretora-geral do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e integrante do conselho de diretores da UICC.
Impactos da pandemia de Covid-19
A diretora da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da Organização Mundial da Saúde (OMS), Elisabete Weiderpass, afirma que a pandemia de Covid-19 teve um grande impacto no diagnóstico, rastreamento e início de tratamento de pacientes afetados por câncer.
“Só agora, nós estamos começando a entender a magnitude que esses atrasos vão ter na sobrevida de pacientes. Em geral, o mais cedo que você diagnostica o câncer e o mais cedo que você trata, melhor o prognóstico”, disse.
Segundo Weiderpass, os efeitos da pandemia sobre a carga da doença a longo prazo ainda permanecem incertos. “Se você atrasa o diagnóstico ou iniciar o tratamento por várias semanas ou vários meses, com certeza isso tem um impacto na sobrevida. Na Organização Mundial da Saúde, estamos monitorando esse impacto e vamos divulgar essas informações assim que elas estejam disponíveis”, afirmou.
Acesso desigual aos serviços de saúde
O diagnóstico e tratamento oportunos do câncer ainda são desafios diante das desigualdades no acesso aos serviços de saúde no país.
Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que mais da metade dos brasileiros (entre 49% e 60%) que fazem tratamento contra câncer pelo Sistema Único de Saúde (SUS) precisam deixar o município onde moram para receber assistência especializada.
A pesquisa, publicada na revista científica The Lancet Regional Health Americas, comparou períodos de tempo diferentes e aponta que essa dificuldade no acesso ao tratamento permanece nos últimos dez anos.
Coordenado pela pesquisadora Bruna Fonseca, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz, o estudo utilizou dados dos sistemas de informação do SUS para mapear as redes de deslocamento de pacientes e a acessibilidade geográfica ao tratamento do câncer em todo país.
As disparidades regionais foram apontadas após a análise de 12.751.728 procedimentos de tratamento − cirúrgico, radioterápico e quimioterápico − ao longo de dois períodos: 2009 a 2010 e 2017 a 2018.
Pacientes das regiões Norte e Centro-Oeste têm o acesso aos serviços oncológicos especializados mais dificultado. O estudo mostrou que, dependendo do tipo de tratamento, a maioria desses pacientes teve que percorrer uma média de 296 a 870 quilômetros para realizar a terapia.
Segundo Bruna, todos os pacientes moradores dos estados de Roraima e Amapá precisaram se deslocar para receber atendimento radioterápico, a maioria percorreu mais de 2 mil quilômetros em média. Já pacientes residentes nas regiões Sul e Sudeste percorreram em média 90 a 134 quilômetros para receber o tratamento.
A maior parte dos polos de atração para atendimento oncológico foram identificados nas regiões Sudeste e Nordeste, sendo Barretos (SP) o principal para todos os tipos de tratamento ao longo do tempo. Segundo o estudo, 95% dos pacientes que fazem cirurgia, radioterapia ou quimioterapia no município são de outras cidades.
Apesar de existir um sistema de regulação para organizar o tratamento de câncer no país, outros aspectos podem estar envolvidos no deslocamento dos pacientes, incluindo a percepção sobre os locais de tratamento.
“Há a percepção popular do que é referência no tratamento de câncer, o que faz com que os pacientes se desloquem, independentemente das distâncias e do planejado nas políticas de saúde”, disse Bruna, em um comunicado.
Os especialistas defendem o investimento no cuidado integral à saúde para que o diagnóstico do câncer seja realizado em estágio inicial.
“Os pacientes do SUS têm dificuldade de fazer o diagnóstico. Quando tem a suspeita, os exames demoram, a biópsia demora, não se consegue fazer cirurgia no momento adequado. Na hora de se tratar com quimioterapia ou outras medicações, têm acesso a poucas. Então, falta muita assistência especialmente no Sistema Único de Saúde”, diz Schmerling.
Diagnóstico precoce
O diagnóstico do câncer em fase inicial é fundamental para reduzir os riscos de mortalidade pela doença. A metástase, que consiste no espalhamento do câncer para outras partes do corpo, é uma das principais complicações relacionadas às doenças.
O médico Rafael Aron Schmerling enfatiza que a prevenção ao câncer deve fazer parte da rotina de cuidados em saúde desde o início da vida.
“As pessoas adotam muito facilmente a cultura da estética, a cultura do esporte, mas a cultura da prevenção do câncer é algo que talvez falte e isso precisa começar desde a infância. Uma outra questão grave que nós temos no Brasil e em diversos países da América Latina é a falta de estatísticas precisas”, disse.
Prevenção ao câncer
A adoção de hábitos de vida saudáveis pode contribuir para reduzir os riscos de câncer em até 40%. Na edição desta sexta-feira (4) do quadro Correspondente Médico, do Novo Dia, o neurocirurgião Fernando Gomes destacou uma série de estratégias que contribuem para a prevenção da doença.
Entre elas, estão evitar o consumo de cigarro e bebidas alcoólicas, praticar atividades físicas, manter uma alimentação saudável e equilibrada, além de regular o peso corporal para um níveis adequados.
“Prestando atenção nesta pequena prescrição que traz informações importantes para alinharmos o funcionamento do corpo físico, você pode prevenir em pelo menos 40% o surgimento de algum câncer”, disse Gomes.
O médico Rafael Aron Schmerling também reforça que a prevenção é a medida mais eficaz contra o câncer. “Uma vez prevenida a doença, a gente consegue melhorar o combate. Diagnóstico precoce, a cirurgia adequada e radioterapia adequada são as estratégias que mais conseguem curar os pacientes”, disse.
Além de recomendar a adesão aos hábitos de vida saudáveis, a diretora da OMS, Elisabete Weiderpass, enfatiza a importância dos exames preventivos contra o câncer. “Se fizéssemos o rastreamento precoce, como por exemplo de câncer de colo uterino, de mama e colorretal, nós poderíamos salvar a vasta maioria das vidas que hoje se perdem em relação ao câncer”, disse.
Para ela, os investimentos na prevenção contra a doença ainda são insuficientes no Brasil e no mundo como um todo. “Os investimentos nunca são suficientes, nenhum país do mundo, nem os países mais ricos do mundo podem se permitir usar todo o arsenal de tratamento que estamos descobrindo cientificamente no cotidiano. Então, o melhor investimento é realmente na prevenção”.
No que diz respeito ao tratamento, os especialistas destacam que a cirurgia para a retirada do tecido afetado pelo câncer está entre as principais medidas contra a doença. Além disso, a ciência tem realizado avanços importantes para a melhoria dos tratamentos já existentes, incluindo a radioterapia, terapia com prótons, imunoterapia, drogas de terapia-alvo, anticorpos monoclonais, terapia gênica e uso de inteligência artificial.