Saiba quem é Carla Zambelli, alvo de operação da PF sobre invasões no sistema do Judiciário
Eleita em 2018, deputada federal se tornou figura importante da extrema-direita, com atuações em crises, como nas saídas de Sergio Moro e Regina Duarte do governo Bolsonaro


Um dos alvos de uma operação da Polícia Federal (PF) nesta quarta-feira (2), a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) é uma das principais apoiadoras do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Na última eleição, ela foi a mulher mais votada no país para ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados.
A operação desta quarta-feira teve como objetivo apurar invasões no sistema eletrônico do Poder Judiciário. A PF cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados à deputada. Ela confirmou ter feito pagamentos ao hacker da Vaza Jato, Walter Delgatti, preso hoje.
De acordo com fontes ouvidas pela CNN, a PF não apreendeu nenhum item no gabinete da deputada na Câmara, enquanto no apartamento de Zambelli foram apreendidos o passaporte da parlamentar, além de documentos, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A seguir, saiba quem é a deputada Carla Zambelli e por que ela foi alvo da operação de hoje.
Quem é Carla Zambelli?
Natural de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, Carla Zambelli se elegeu deputada federal nas eleições de 2018, recebendo 76.306 votos, na esteira do antipetismo e do bolsonarismo, se tornando uma figura importante da extrema-direita durante o governo Bolsonaro.
Antes de entrar na vida pública, Zambelli, atuou como gerente de projetos da KPMG em São Paulo, quando se tornou líder do movimento “Nas Ruas”.
Nas últimas eleições nacionais, em 2022, Zambelli foi reeleita deputada federal por São Paulo com mais de 946 mil votos, a segunda mais votada do estado.
Qual é a ligação de Zambelli com Bolsonaro?
Atualmente vice-líder da minoria na Câmara e filiada ao PL, a parlamentar teve participação central em acontecimentos ligados ao governo Bolsonaro.
Em 2020, por exemplo, Zambelli atuou para tentar manter o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, no cargo. Foram reveladas trocas de mensagens com Moro, na qual a deputada procurou evitar a saída do ex-juiz do então governo e sugeriu que ele teria uma vaga garantida no STF. O diálogo entre eles foi incluído no inquérito que apurava se Bolsonaro tentou interferir na Polícia Federal.
Além disso, Zambelli foi figura central na crise que envolveu a secretária especial da Cultura, a atriz Regina Duarte. Após uma entrevista exclusiva à CNN, no dia 7 de maio de 2020, a então secretária de Cultura recebeu críticas da classe artística por minimizar a ditadura, afirmando que “sempre houve tortura e que não quer arrastar um cemitério”.
Bolsonaro pediu à deputada que encontrasse uma saída honrosa para a atriz: “Veja o que pode fazer para deixar a Regina feliz. Ela deixou a Rede Globo e me sinto responsável”, disse o presidente, segundo ela. Foi de Carla Zambelli a sugestão de oferecer à atriz o comando da Cinemateca.
Veja também: PF: Assessores de Zambelli fizeram pagamentos a hacker
A parlamentar também virou alvo da Justiça após ser filmada no dia 29 de outubro, após as eleições de 2022, entrando em um bar nos Jardins, bairro do centro de São Paulo, com um revólver em punho.
O STF julgará em agosto uma denúncia contra Zambelli por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento com uso de arma. A análise será feita no plenário virtual entre 11 e 21 de agosto. A denúncia foi apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em janeiro de 2023. Se a Corte aceitar a denúncia, Zambelli se torna ré em uma ação penal.
Por que a operação teve Zambelli como alvo?
Os crimes investigados pela PF ocorreram entre os dias 4 e 6 de janeiro de 2023, quando teriam sido inseridos no sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e, possivelmente de outros tribunais pelo país, 11 alvarás de soltura de indivíduos presos por motivos diversos, além de um mandado de prisão falso contra o ministro Alexandre de Moraes.
De acordo com a PF, as inserções fraudulentas ocorreram após invasão criminosa aos sistemas em questão, com a utilização de credenciais falsas obtidas de forma ilícita, conduta mediante a qual o(s) criminoso(s) passaram a ter controle remoto dos sistemas.
O hacker Delgatti foi preso na operação suspeito de ter invadido os sistemas para inserir os dados no sistema. No entanto, ela afirmou que o contratou para realizar serviços em seu site pessoal.
“Os pagamentos foram sempre relacionados ao site, para ele fazer melhorias no site, fazer firewall no site e ligar as minhas redes sociais ao site, que ele próprio disse que não conseguiu realizar essa tarefa. Inclusive, deveria ter tido até a devolução [do dinheiro]”, disse Zambelli em coletiva na Câmara dos Deputados.
De acordo com a parlamentar, R$ 3 mil de sua cota para comunicação foram usados para fazer os pagamentos a Delgatti. O restante, que somam R$ 13,5 mil, segundo fontes da Polícia Federal (PF), saiu de seu próprio bolso.
Os pagamentos feitos ao hacker são um dos elementos que embasam a operação da PF realizada nesta quarta-feira.
O hacker Walter Delgatti afirmou à PF em um depoimento no final de junho, que Zambelli pediu para ele obter “conversas comprometedoras” do ministro Alexandre de Moraes.
A assessoria de Carla Zambelli informou à CNN que a deputada federal não irá se manifestar sobre o episódio.
Segundo Moreira, não há negociação de delação premiada em andamento. Porém, afirmou que o cliente tem predisposição de colaborar com a Justiça para “trazer até as autoridades o que realmente aconteceu, quem são as pessoas envolvidas, qual é a participação dele e dessas outras pessoas”.
“Ele fez isso [invasão], e fez isso a mando de Carla Zambelli. Ele é réu confesso e vai responder pelo crime, tem ciência do que ele fez e quer colaborar com as investigações para que se chegue ao que realmente aconteceu”, pontuou.
Questionado, Moreira não especificou quem seriam as outras pessoas envolvidas, destacando que Walter Delgatti pode dar novos depoimentos às autoridades nos próximos dias.