Quem são os “kids pretos”: quatro alvos de operação da PF integram grupo
Grupo é especializado em situações de guerra irregular, como guerrilhas e movimentos de resistência


A Polícia Federal (PF) realiza, na manhã desta terça-feira (19), uma operação contra organização criminosa responsável por planejar os assassinatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), e do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Dos cinco presos pela PF na manhã desta terça-feira (19), quatro são do grupo de elite do Exército chamado “kids pretos”. Outros, que não tiveram prisão preventiva decretada, também são investigados.
Conforme apuração da CNN, os presos são: Rafael Martins de Oliveira, Rodrigo Bezerra de Azevedo, Hélio Ferreira Lima, Mario Fernandes, e o policial federal, Wladimir Matos Soares.
“Kids pretos” é o nome dado aos militares formados pelo Curso de Operações Especiais do Exército Brasileiro, treinados para atuar em missões sigilosas e em ambientes hostis e politicamente sensíveis, eles integram a chamada “elite” do exército.
Eles recebem o apelido por utilizarem gorros pretos em operações – são caracterizados como especialistas em guerra não convencional, reconhecimento especial, operações contra forças irregulares e contraterrorismo.
Os militares podem passar pelos treinamentos intensivos em três lugares diferentes: Comando de Operações Especiais, em Goiânia, Centro de Instrução de Operações Especiais, em Niterói, no Rio, ou podem completar a formação em Manaus, na 3ª Companhia de Forças Especiais.
Segundo o Centro de Instrução de Operações Especiais, o programa existe desde 1957 e foi inspirado no curso “Ranger”, com destaque para o Batalhão de “Special Forces”, a principal unidade de infantaria leve e força de operações especiais dentro do Comando de Operações Especiais do Exército dos Estados Unidos.

O curso tem a duração máxima de 23 semanas (em média 5 meses) e ensina táticas específicas das operações especiais, como, por exemplo, na guerra irregular e em operações contra forças irregulares, “visando a consecução de objetivos políticos, econômicos, psicossociais ou militares relevantes, preponderantemente, por meio de alternativas militares não convencionais”, explicam as informações publicadas pelo Centro de Instrução de Operações Especiais (CiOpEsp).
Essas missões podem acontecer tanto em momentos de crise ou conflito quanto em momentos de paz e regularidade institucional.
Operação Tempus Veritatis
Em fevereiro, uma investigação da PF instaurada para apurar uma organização responsável por tentativa de golpe de Estado, para manter Jair Bolsonaro (PL) na Presidência após a derrota nas eleições de 2022 também colocou em evidência os kids pretos.
O grupo, teria a incumbência, supostamente, de prender Moraes assim que o golpe fosse instaurado no país. A operação teria surgido com base na delação premiada de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do antigo presidente. O ex-chefe do Comando de Operações Terrestres do Exército (Coter) general Estevam Theóphilo, seria o responsável por contratar a organização criminosa.
No entanto, para que esses oficiais fizessem parte do que a PF caracterizou como um plano de golpe de Estado, Bolsonaro teria que assinar um decreto presidencial que colocaria o Brasil em estado de sítio, limitaria o Judiciário e impediria a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A investigação apontou ainda que o ex-chefe do Executivo teria feito alterações na “minuta golpista” para excluir a prisão do ministro do STF Gilmar Mendes, além do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
A PF encontrou conversas entre Correa Neto e Mauro Cid no celular do antigo ajudante de ordens de Bolsonaro. Os diálogos, na visão da organização, provariam que Neto selecionou apenas militares das Forças Especiais para integrar a reunião.
“Os diálogos encontrados no celular de MAURO CID demonstram que CORREA NETO intermediou o convite para reunião e selecionou apenas os militares formados no curso de Forças Especiais (Kids Pretos), o que demonstra planejamento minucioso para utilizar, contra o próprio Estado brasileiro”, informa um trecho do documento enviado pela PGR.
O general Estevam Theophio Gaspar de Oliveira, ex-chefe do Coter, e hoje na reserva, teria encontrado Bolsonaro em dezembro de 2022, após o segundo turno das eleições presidenciais.
Em mensagens trocadas com Mauro Cid, Theophio teria concordado com a operação para impor um golpe de Estado no país, desde que Bolsonaro assinasse o decreto presidencial que formalizaria a operação. Os “kids pretos” cumpririam, então, o papel de prender Alexandre de Moraes.
“Nesse sentido, além de ser o responsável operacional pelo emprego da tropa caso a medida de intervenção se concretizasse, os elementos indiciários já reunidos apontam que caberiam às Forças Especiais do Exército (os chamados Kids Pretos) a missão de efetuar a prisão do Ministro do Supremo Tribunal Federal ALEXANDRE DE MORAES assim que o decreto presidencial fosse assinado”, explicou a PGR.