Autoridades repercutem vídeo de reunião ministerial
O ministro Ricardo Salles defendeu que suas falas sobre a Amazônia estavam "dentro da lei"; atacado em vídeo, Doria vê "descaso com a democracia"


Autoridades reagiram à divulgação da reunião ministerial de 22 de abril com o presidente da República, Jair Bolsonaro, pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nesta sexta-feira (22).
Um dos protagonistas das imagens, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, escreveu que “sempre defendeu desburocratizar e simplificar normas” com “bom senso” e “dentro da lei” como justificativa a sua sugestão exposta no vídeo de “aproveitar que a imprensa está de olho na Covid para mudar a legislação” sobre a Amazônia.
Sempre defendi desburocratizar e simplificar normas, em todas as áreas, com bom senso e tudo dentro da lei. O emaranhado de regras irracionais atrapalha investimentos, a geração de empregos e, portanto, o desenvolvimento sustentável no Brasil. pic.twitter.com/0W2X5wVx2U
— Ricardo Salles MMA (@rsallesmma) May 22, 2020
Um dos governadores xingados pelo presidente durante o encontro, o paulista João Doria (PSDB) se pronunciou em seu perfil no Twitter no início da noite desta sexta. O político do PSDB afirmou que os “palavrões, ofensas e ataques” direcionados a autoridades dos três poderes “demonstram descaso com a democracia.”
Assista à integra do vídeo da reunião ministerial de Bolsonaro
“Lamentável exemplo em meio a maior crise de saúde da história do país e diante de milhares de vítimas”, completou Doria, poucos minutos depois do balanço do Ministério da Saúde, em que o Brasil ultrapassou a Rússia no segundo lugar do ranking de países com mais infectados pelo novo coronavírus.
O Brasil está atônito com o nível da reunião ministerial. Palavrões, ofensas e ataques a governadores, prefeitos, parlamentares e ministros do Supremo, demonstram descaso com a democracia, desprezo pela nação e agressões à institucionalidade da Presidência da República.
— João Doria (@jdoriajr) May 22, 2020
Outro dos governadores diretamente mencionados, Wilson Witzel (PSC), do Rio de Janeiro, “a falta de respeito de Bolsonaro pelos poderes atinge a honra de todos. Sinto na pele seu desapreço pela independência dos poderes”. O governador do Rio retomou a reunião acontecida nesta quinta-feira (21), em que Bolsonaro teve uma discussão considerada positiva pelos executivos estaduais.
Tanto na reunião ministerial quanto em sua live em frente ao Alvorada, Bolsonaro segue de forma destoante. O que o povo, governadores e prefeitos mais querem é aquele presidente ouvidor da nossa reunião de quinta-feira. Aquele presidente supostamente equilibrado.
— Wilson Witzel (@wilsonwitzel) May 23, 2020
Já o governador Flavio Dino, do PCdoB do Maranhão, fez críticas diretas ao conteúdo da reunião ministerial, afirmando que ela revela “um repertório inacreditável de crimes, quebras de decoro e infrações administrativas.”
Na forma e no conteúdo, a tal reunião ministerial revela um repertório inacreditável de crimes, quebras de decoro e infrações administrativas. Além de uma imensa desmoralização e perda de legitimidade desse tipo de gente no comando da nossa Nação.
— Flávio Dino ???? (@FlavioDino) May 22, 2020
Entre os membros da oposição ao governo federal, o ex-prefeito Fernando Haddad (PT), rival de Bolsonaro nas eleições de 2018, e Guilherme Boulos, que também concorreu à presidência, definiram as falas como inapropriadas para um chefe de Estado.
Haddad destacou que Jair Bolsonaro se referiu a um investigado pela Polícia Federal como “amigo”, argumentando que isso desmente que a preocupação da autoridade era a segurança de sua família.
Se a preocupação do presidente fosse com a segurança da família, ele não se referiria a “F**** AMIGO MEU”. Não há dúvida. PF não faz segurança de amigo. Nem vou falar do nível do governo. Sem condições!!
— Fernando Haddad (@Haddad_Fernando) May 22, 2020
O líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), disse à CNN nesta sexta-feira (22) que ao assistir o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril com o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), ficou claro e comprovado que ele incorreu em crime de obstrução de Justiça e quis interferir na Polícia Federal.
Também em entrevista à CNN, o ex-presidente Michel Temer (MDB) afirmou que é cedo para dizer saber se o procurador-geral da República, Augusto Aras, vá ou não denunciar o presidente Jair Bolsonaro, uma vez que não foram colhidas todas as provas e depoimentos necessários. Temer, que teve duas denúncias contra si rejeitadas pela Câmara dos Deputados, fez um contraponto ao sucessor, ao elogiar o trabalho do ministro Celso de Mello, do STF, na condução do inquérito.
Temer lamentou que a divulgação do vídeo tenha acontecido após a citada reunião entre o presidente Jair Bolsonaro e os governadores dos estados e afirmou esperar que o conteúdo não altere o cenário das relações que estava posto ontem.
O assessor da Presidência para assuntos internacionais, Filipe Martins, elogiou o conteúdo das conversas, apesar das falas polêmicas do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre a necessidade de “aturar” a China.
Para o assessor, a reunião mostra que o presidente se reúne com ministros para atender “demandas” do povo brasileiro.
O vídeo revela um governo profundamente comprometido com as liberdades fundamentais e com as aspirações urgentes de nossa população; revela também a revolta do governo federal com o tratamento nojento que o establishment brasileiro dispensa ao povo no Brasil. Isto é Bolsonaro!
— Filipe G. Martins (@filgmartin) May 22, 2020
O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Jorge de Oliveira Francisco, que também atua como subchefe de assuntos jurídicos de Bolsonaro, afirmou que as falas do presidente não tem “nexo com o inquérito” sobre sua intervenção na Polícia Federal.
Conteúdo divulgado, sem nexo com o inquérito, apenas expõe o PR @jairbolsonaro com palavras não polidas buscando o melhor para o Brasil. Em outros governos quem fala(ou) bonito f…(eu) nosso povo. pic.twitter.com/3vZwYxdnxS
— Jorge de Oliveira Francisco (@jorgeofco) May 22, 2020
O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto se manifestou através de nota
Os insultos do presidente Bolsonaro, dirigidos a mim e a outros homens públicos, representam um verdadeiro “strip-tease moral” feito por quem não tem a mais mínima condição de governar o Brasil.
Transforma a solenidade de uma reunião de Ministério em uma conversa de malandros de esquina. Quebra a liturgia do cargo. Vulgariza a instituição que deveria saber honrar. Exibe despreparo e me põe a questionar todos os presentes: como um ministro pode, sem se desmoralizar, conviver com uma pessoa dessa baixa extração? Que tempos! Que costumes.
Nosso povo merece acatamento e não a submissão a uma liderança do submundo das “rachadinhas” e das milícias, do submundo da ditadura e das torturas.
O presidente da República, em seu criminoso boicote ao isolamento social, em seu desprezo aos indígenas, em seu apreço a garimpeiros que poluem rios, sonegam impostos e invadem áreas indígenas, é claramente cúmplice de tantas mortes causadas pelo Covid 19. Trata-se de um ser despreparado, inculto e deseducado.
Não gosta de mim? Que bom. Sinal de que estou no lado certo da vida. Também não gosto da ditadura que já nos massacrou e que ele gostaria de reviver. Daqui a pouco mais de dois anos, o país estará livre de tão diminuta e mesquinha figura.