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    Refúgio da família real, capital e destino turístico: a Petrópolis arrasada pelas chuvas

    Até o mandato de Costa e Silva, todos os presidentes da República passavam regularmente os períodos de férias no Palácio Rio Negro, na cidade da Região Serrana do Rio de Janeiro

    Stéfano Sallesda CNN , Rio de Janeiro

    Com pouco mais de 307 mil habitantes na estimativa mais recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e localizada na região serrana do Rio de Janeiro, a cerca de 800 metros acima do nível do mar, Petrópolis, foi fundada em 1843 pelo imperador dom Pedro 2º, a quem o nome do município homenageia. As chuvas que atingem a cidade desde a terça-feira (15) já deixaram dezenas de mortos por conta dos deslizamentos de terras e demais ocorrências.

    Nos meses mais quentes do ano, Petrópolis era destino de boa parte da corte portuguesa, que chegou ao Rio de Janeiro em 1808. O clima ameno é fruto da combinação entre a serra e a preservação de boa parte da Mata Atlântica. Pelos fatores históricos, atualmente, o turismo era uma das principais atividades econômicas da cidade, logo depois das confecções têxteis.

    Diretor da Assessoria Fiscal da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Mauro Osório lembra que a tradição de veraneio na cidade serrana perdura até hoje, e que, até o mandato do presidente Costa e Silva (1967-1969), todos os presidentes brasileiros passaram férias no Palácio Barão do Rio Negro. As instalações chegaram ser usadas pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva.

    “O turismo é muito importante para uma série de localidades de Petrópolis, como os distritos de Itaipava, Pedro do Rio e muitos bairros do primeiro distrito, mas o mais importante para a economia da cidade é o polo de confecção, concentrado no Bigen, que tem como seu maior símbolo as lojas da Rua Teresa, que distribuem as peças para todo o Brasil”, explica o economista, que morou na cidade, onde foi professor universitário.

    Doutor em História e professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Marcus Dezemone, destaca que a instalação da então Família Real em Petrópolis dinamizou a cidade, que se tornou a mais importante economia da Região Serrana. Seja pela concentração de renda, seja pela ampliação da base de oferta de serviços.

    O pesquisador destaca a Catedral de São Pedro de Alcântara, em estilo neogótico, como os parlamentos de Londres (Inglaterra) e Budapeste (Hungria), o Museu Imperial e o Palácio de Cristal, uma encomenda do Conde d’Eu, marido da princesa Isabel. A construção foi feita no formato de uma estufa, um estilo comum no fim do século 19, predominantemente em ferro, aço e vidro.

    O avanço garantiu a construção de equipamentos-símbolo da cidade em outros períodos, como o Hotel Quitandinha, onde os presidentes do Brasil e dos EUA discutiram em 1947 o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar).

    “Esse é um tema importante, neste momento em que se discute tanto a adesão da Ucrânia à Otan. O Tiar é um antecessor da Otan. Os investimentos feitos na cidade, iniciados com a chegada da Família Real, atraíram uma série de outros investimentos em diferentes períodos que dinamizaram a cidade e ofereceram ampla cadeia de serviços. O Quitandinha, por exemplo, é uma obra do período do Estado Novo de Getúlio Vargas”, explica.

    Petrópolis
    Museu Imperial tem objetos que foram do segundo reinado da Família Imperial no Brasil / NurPhoto via Getty Images

    Dezemone aponta ainda que Petrópolis chegou a ser capital do Estado do Rio de Janeiro, depois de 1889, quando foi proclamada a República. Isto porque a cidade do Rio de Janeiro fora então elevada à condição de município neutro. Assim, Petrópolis foi capital fluminense, antes que o posto fosse repassado a Niterói. Tudo isto, antes de o Distrito Federal se tornar Guanabara e, posteriormente, se fundir ao antigo Estado do Rio de Janeiro.

    “Em Petrópolis, há hoje símbolos do período colonial, do período imperial e do republicano. As chuvas se concentraram essencialmente no Centro de Petrópolis, que é a região mais histórica. Atualmente, a cidade tem também um outro perfil de turismo, mais focado no público mais jovem. O ecoturismo, que funciona em áreas que foram menos afetadas”, conclui o pesquisador.

    Osório destaca ainda outra vocação menos percebida da cidade: além de ser destino de veraneio para as famílias mais abastadas, ela concentra uma população importante de idosos aposentados.

    “Muita gente que morava no Rio passa a aposentadoria toda em Petrópolis, não é só para o fim de semana na casa da serra. E há uma concentração importante da elite econômica por ali, por manutenção de uma antiga tradição de quem procura uma tranquilidade que não se encontra mais nas grandes cidades”, conclui o economista.

    Fotos – Chuvas causam destruição em Petrópolis

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