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    Quarentena aumenta coleta de materiais recicláveis, segundo associação

    Levantamento foi feito com operadores de diversos municípios, de diferentes regiões, que representam 60% do mercado de limpeza urbana do país

    Carlos Antônio dos Reis tem 52 anos e desde os 9 percorre as ruas da cidade de São Paulo coletando materiais recicláveis. O ano de 2020 está sendo histórico para ele: nunca viu tanto plástico e papel descartado. Também nunca trabalhou tão intensamente quanto agora. O que ele vive hoje na maior cidade do Brasil é reflexo do isolamento social e um recorte do que se observa em todo o país.

    Um balanço da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) mostra um aumento de 28% na coleta de resíduos recicláveis no Brasil no mês de maio, considerando apenas o lixo doméstico. O levantamento foi feito com operadores de diversos municípios, de diferentes regiões, que representam 60% do mercado de limpeza urbana do país.

    O diretor-presidente da entidade, Carlos Silva Filho, disse que esse resultado vem da maior permanência das pessoas em casa por causa da quarentena. “É fruto desse novo perfil de compra online de embalagens para os alimentos, do delivery. Infelizmente, nós observamos esse aumento, mas isso não se transformou em reciclagem porque muitas centrais no Brasil tiveram a atividade suspensa e todo material coletado foi para aterros e lixões.”

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    Na cidade de São Paulo, a Prefeitura apontou um crescimento de 39% na coleta seletiva nos primeiros 23 dias de junho, em comparação com o mesmo período de 2019. Foram recolhidas 6 mil toneladas de resíduos recicláveis ante 4,3 mil no ano passado.

    Neste mês, a gestão também relatou queda de aproximadamente 30% nos dados de varrição pública. “Esses números podem estar ligados a uma maior adesão dos paulistanos à reciclagem, assim como uma menor geração de resíduos nas ruas durante o período de quarentena por causa do novo coronavírus”, afirmou, em nota, o órgão, que ainda não tem dados sobre o recolhimento de plástico neste ano.

    Embora a coleta aconteça, o panorama brasileiro da reciclagem ainda preocupa. Isso porque, segundo Filho, o país recicla apenas 4% dos seus resíduos, e a maior parte desse trabalho é feita informalmente por pessoas como Carlos Antônio dos Reis.

    O catador estima um aumento de 75% da coleta só de plástico desde que a quarentena começou na cidade de São Paulo. Em uma única casa na região dos Jardins, ele recolhia um saquinho de lixo por semana com resíduos recicláveis. Agora, são seis.

    Outro exemplo que Reis dá é de um condomínio com 40 apartamentos onde, antes, ele passava uma vez por semana e, durante a quarentena, passou a ir duas vezes por semana. “Nunca vi algo assim, mesmo quando a cidade não tinha coleta seletiva e nem cooperativas da Prefeitura. Isso é porque aglomerou todo mundo em casa.”

    Modelo de produção

    Embora o cenário de emergência justifique o maior consumo e descarte de materiais recicláveis, principalmente o plástico, o modelo de produção brasileiro e o comportamento humano sempre contribuíram para isso.

    “O Brasil está muito distante do conceito de economia circular (em que o resíduo volta como matéria-prima). Para que isso aconteça, precisamos de toda uma cadeia produtiva, de comércio e de devolução dos materiais, para funcionar”, disse Filho.

    O hábito de reciclar também deixa a desejar entre os brasileiros. A penúltima edição do relatório da Abrelpe trouxe uma pesquisa realizada pelo Ibope com pouco mais de duas mil pessoas, das quais 98% consideravam a reciclagem importante, mas 75% não fazia coleta seletiva. “Por mais que as pessoas recebam informação, na prática ainda não conseguimos engajar esse cidadão”, ressaltou o diretor da Abrelpe. “Se não houver esse passo inicial do cidadão, a coleta seletiva e a reciclagem não vão funcionar.”

    Por outro lado, a entidade notou uma queda de 9% em maio na geração de resíduos sólidos urbanos em comparação ao mesmo período de 2019. Esse contingente inclui o lixo doméstico e o de limpeza pública, como varrição.

    “A gente levantou que a questão da retração econômica, a perda do poder aquisitivo da população, afeta diretamente essa situação em que nós chegamos, da geração de resíduos sólidos. Com menor poder aquisitivo, com menor disponibilidade financeira, houve menor consumo e menor descarte”, explicou Filho. 

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