O que você precisa saber sobre eleição que define futuro da Alemanha sem Merkel
País vai às urnas no domingo (26) em uma votação federal imprevisível que, pela primeira vez em quase duas décadas, não terá Angela Merkel entre seus candidatos
Os alemães entrarão nas seções eleitorais em uma votação federal imprevisível no domingo (26) na primeira vez, em quase duas décadas, que sua longeva primeira-ministra não estará na disputa.
A chanceler Angela Merkel é um símbolo de estabilidade na Europa desde que assumiu o cargo em 2005; a química que se tornou esteio político resistiu a uma onda de populismo, uma crise financeira, uma pandemia e ao Brexit para esculpir um legado impressionante como a líder feminina mais bem-sucedida do mundo.
Mas Merkel, de 67 anos, deixará o cargo assim que as repercussões da votação de domingo se tornarem claras, uma medida que lançou uma sensação de incerteza na eleição do fim de semana.
Em comparação com as votações anteriores, em 2017 e em 2013, há “muito mais chance de uma mudança significativa na política alemã após a eleição”, de acordo com Pepijn Bergsen, pesquisador que monitora o país para o think tank internacional Chatham House.
A corrida para se tornar sucessor de Merkel é acirrada, e o vencedor pode não ser conhecido por dias ou mesmo semanas após o fechamento das urnas.
Mas, pela primeira vez em uma geração, os alemães decidirão como será a Alemanha pós-Merkel. Qualquer pessoa a quem recorrerem terá de enfrentar uma série de desafios, tanto no seu país como no exterior.
Fim da jornada de Merkel
A saída de Merkel das linhas de frente da política global demorou muito para chegar; ela anunciou pela primeira vez em 2018 que não buscaria a reeleição no final de seu mandato, após uma série de contratempos nas eleições regionais.
Em seu mandato, ela lidou com cinco primeiros-ministros do Reino Unido, quatro presidentes franceses, sete primeiros-ministros italianos e quatro comandantes-em-chefe norte-americanos.
Seu período no poder foi notavelmente agitado, e a presença imperturbável de Merkel durante todo o período lhe rendeu uma reputação internacional de estabilidade e equilíbrio.
“Isso funcionou muito bem politicamente para ela na Alemanha e no cenário mundial”, disse Bergsen à CNN. “A Alemanha se saiu muito bem nos últimos 15 anos do ponto de vista econômico… (e) a Alemanha não se saiu mal durante a crise financeira, mas percebeu que isso não vai durar.”
A crise dos refugiados europeus em meados da década de 2010 foi um grande desafio para o partido de Merkel, a União Democrática Cristã (CDU), e ela também ganhou críticas por seu relacionamento próximo com a China.
Mas depois de uma pandemia que viu a Alemanha se sair melhor do que muitos de seus vizinhos, analistas e pesquisas sugerem que Merkel deixará o cargo com o respeito da maioria dos alemães.
“Ela é vista de forma muito positiva na Alemanha, porque está associada à estabilidade – as pessoas sabem o que esperar”, disse Ben Schreer, do escritório europeu do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) em Berlim.
Quem está na disputa para substituí-la?
A política alemã é dominada por dois partidos – o CDU de centro-direita e o Partido Social-democrata (SPD), de esquerda, que governaram juntos em uma coalizão nos últimos oito anos.
Mas a popularidade de outros partidos cresceu na última década, à medida que o CDU e o SPD perderam terreno. Esta eleição está particularmente acirrada; o CDU e o SPD têm vantagens nas pesquisas, e o Partido Verde também se apresenta como um sério candidato.
O sucessor de Merkel no comando do CDU é Armin Laschet, de 60 anos, um aliado de longa data da chanceler e vice-líder do partido desde 2012.
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Armin Laschet, candidato da CDU a primeiro-ministro da Alemanha • Michele Tantussi - 13.set.2021/Reuters
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Olaf Scholz, ministro das Finanças e vice-chanceler de Merkel desde 2018, é candidato pelo SPD • Michael Lucan/Wikipédia
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Annalena Baerbock, do Partido Verde, liderou as pesquisas no começo da campanha • Reprodução/ABaerbock/Twitter
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Um católico devoto, cujo pai foi engenheiro de mineração de carvão, ele foi selecionado como candidato após uma luta torturante pela liderança.
Laschet tem formação em direito e jornalismo e foi eleito para o Bundestag – o Parlamento alemão – em 1994.
Merkel expressou seu apoio a Laschet, mas apesar de seus esforços para persuadir os alemães a permanecerem com a CDU, as pesquisas sugerem sua substituição, já que o líder do partido tem lutado para convencer os alemães.
Seu principal oponente é Olaf Scholz, do SPD, que surpreendeu pela liderança nas pesquisas nas últimas semanas, deixando-o como o favorito para a votação de domingo.
Como Laschet, Scholz tem uma longa história como ator político na Alemanha. Ele é ministro das finanças e vice-chanceler de Merkel desde 2018, o que o coloca sem dúvida em uma posição melhor para concorrer como seu sucessor natural do que o candidato de partido da chanceler.
Scholz ganhou maior visibilidade enquanto atuava na resposta econômica da Alemanha à pandemia e superou o último obstáculo eleitoral com um desempenho seguro no debate final na televisão.
Mesmo assim, as pesquisas sugerem um grande número de eleitores indecisos no final da campanha, aumentando a imprevisibilidade da votação.
A líder do Partido Verde, Annalena Baerbock, causou uma breve sensação na política alemã quando subiu nas pesquisas no início da campanha, levando os eleitores a se perguntarem se ela poderia se tornar a primeira chanceler verde do país.
Ex-trampolinista profissional de 40 anos, Baerbock se destaca em um campo de líderes políticos do sexo masculino.
Embora sua estrela tenha diminuído um pouco na reta final da camapnha, ela capitalizou as preocupações dos eleitores com o clima para estabelecer seu grupo como o terceiro partido na disputa.
O partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) continua sendo uma presença obstinada na cena política, disputando o quarto lugar com o liberal Partido Democrático Liberal (FDP).
A crise de refugiados que desencadeou o aumento do AfD na política alemã diminuiu como uma questão política urgente, mas o partido continua a ser uma válvula de escape para eleitores irritados com as questões de imigração.
Em março, eles se tornaram o primeiro partido alemão desde a era nazista a ser colocado sob vigilância do governo.
Como é a votação?
As eleições alemãs para o Bundestag são realizadas em um sistema de representação proporcional, o que significa que a parcela de votos de cada partido está diretamente relacionada ao número de assentos que obtêm no Parlamento.
Esse princípio torna virtualmente impossível para um partido liderar um governo sozinho; em vez disso, as coalizões devem ser formadas após a votação, e frequentemente contêm mais de dois grupos.
E muitos alemães já depositaram seus votos;; a pandemia aumentou o número de votos por correspondência ocorridas antes do dia da votação.
Independentemente de como eles escolhem votar, os alemães escolhem o legislador local e também o partido geral de sua preferência.
Assim que os resultados forem definidos, começará uma corrida para reunir cadeiras suficientes para governar – o que significa que partidos menores podem se tornar peças-chave.
“Quem quer que ganhe no papel no domingo à noite provavelmente não pode ter certeza de que vai realmente liderar o governo, porque haverá muitas permutações”, explicou Schreer. “Podemos não saber até novembro, se tivermos sorte.”
Quais são as principais questões do país?
Todos os candidatos estão presos em um enigma do tamanho de Merkel, enquanto tentam definir suas próprias agendas e acalmam os temores dos alemães sobre uma mudança na liderança.
A mudança climática é um fator importante no debate nacional do país, especialmente depois que inundações devastadoras atingiram o país em julho.
Um impulso de Merkel colocou as questões ambientais no centro da política alemã e praticamente todos os partidos enfatizaram suas credenciais verdes.
Nesta campanha, o Partido Verde pediu um corte de 70% nas emissões de gases de efeito estufa em relação aos níveis de 1990 até 2030, em comparação com a meta atual do governo de um corte de 55%.
As preocupações econômicas também vieram à tona; em um discurso de última hora para os eleitores, Laschet disse na segunda-feira (20) que uma coalizão de esquerda liderada pelo SPD causaria uma “grave crise econômica”, informou a Reuters.
Laschet também seguiu a linha de Merkel em relação à União Europeia (UE); no debate final, enfatizou a coesão europeia como uma de suas políticas emblemáticas.
Mas a campanha foi definida, principalmente, por questões domésticas; um aumento do salário mínimo e reformas previdenciárias estão no centro da campanha de Scholz, e ele enfatizou esses planos novamente no debate.
Alemanha sem Merkel ainda liderará no cenário mundial?
As consequências globais da votação de domingo são claras: a longevidade de Merkel a tornou a líder de fato da Europa, e não está claro se seu sucessor desempenhará o mesmo papel.
“A Alemanha terá alguns desafios significativos de política externa que o novo governo terá de enfrentar”, disse Schreer.
“A questão é: quem vai substituir (Merkel) e essa pessoa terá o mesmo carisma e habilidade que ela?”, adicionou. “Os aliados são céticos e os alemães também são bastante cautelosos a esse respeito.”
Uma parte fundamental do papel de Merkel foi sua determinação inabalável de manter a coesão europeia e evitar as rachaduras entre os Estados-membros da UE.
“Macron tentará usurpar a posição de Merkel na Europa”, previu Bergsen, sinalizando uma possível mudança no equilíbrio de poder em relação à França, o vizinho ocidental da Alemanha.
“A posição alemã não mudará necessariamente, mas quem quer que chegue ao poder terá que lidar com uma coalizão mais ampla (doméstica), de modo que terá um pouco mais de dificuldade para liderar no cenário internacional.”
Olhando mais longe, o novo líder da Alemanha também terá que equilibrar as relações do país com os Estados Unidos e a China, duas nações com as quais Merkel tentou manter laços estreitos.
E manter a relação com o Reino Unido após sua saída da UE será fundamental. “O Reino Unido continua sendo um parceiro importante em termos estratégicos e a Alemanha sabe que se o Reino Unido não estiver envolvido no continente europeu, vai dividir os europeus”, disse Schreer.
“(A Alemanha) é um país muito respeitado no cenário internacional – esse é, sem dúvida, o caso”, acrescentou. “A questão é: isso agora permite à Alemanha resistir às tormentas internacionais que certamente estão por vir?”
(Texto traduzido; leia o original em inglês)