O drama de brasileiras para trazer seus bebês gerados em barrigas de aluguel na Ucrânia
Falta de documentos por causa da invasão russa e dificuldade na logística de uma cidade sob ataque impedem retorno de famílias com recém-nascidos ao Brasil


Kelly e Patrícia são duas brasileiras que compartilham do mesmo drama na guerra na Ucrânia. Meses atrás, sem condições de engravidar, elas recorreram a um país do leste europeu, com legislação liberal, até então pacífico e que era um porto seguro para quem buscava barrigas de aluguel, a Ucrânia.
Agora, com suas bebês recém-nascidas, elas dividem a mesma aflição. Não sabem como deixarão Kiev diante de uma guerra iniciada pela Rússia.
Kelly Lisiane Müller Wilke, de 39 anos, e Patrícia Snapo, de 50, aninhavam suas filhas nos braços enquanto conversavam com a CNN por videoconferência, em um subsolo de um prédio residencial, em Kiev.
Minutos antes da entrevista, elas tinham ouvido estrondos de bombardeios. As duas mães aguardam ansiosamente notícias da embaixada brasileira. Kelly está na Ucrânia acompanhada do marido, Fábio Wilke. Patrícia está com um casal de amigos, Fernanda e Leandro.
Apenas nesse abrigo são cerca de dez bebês, contando com as duas meninas brasileiras, gerados por materiais genéticos dos pais em barrigas de aluguel ucranianas. Com a invasão russa no país, essas famílias não conseguiram os documentos necessários para as crianças voltarem para casa antes do conflito.
Patrícia, que vive no Rio de Janeiro, chegou à Ucrânia na primeira semana de fevereiro Desde então, com medo de que a situação geopolítica se agravasse, ela tenta agilizar a burocracia para a certidão de nascimento ucraniana de sua filha, documento indispensável para a emissão do passaporte da bebê.

Em solo brasileiro, sua filha mais velha, Pamella Rodrigues Drummond, 28, pressiona o Itamaraty por ajuda. “Todo dia nós pressionamos porque eles queriam vir embora e a situação todo dia se agravando e eles falavam que tinha burocracia para a emissão da certidão (ucraniana) e que, mesmo depois da emissão da certidão, tinha que aguardar para ir à embaixada do Brasil para conseguir fazer a certidão brasileira, CPF e passaporte”, conta Pamella.
A previsão do cartório era de que o documento ficaria pronto nesta sexta-feira (25). No entanto, com a invasão na madrugada da última quinta-feira (24), o cartório fechou e o documento não chegou. Ainda assim, a resposta da embaixada brasileira continua sendo de que o registro ucraniano da bebê é essencial para a emissão do passaporte.
Dessa forma, ainda que o governo brasileiro realize uma operação de resgate no país, Patrícia não poderia sair com a bebê. “Eles falaram que estão estudando o nosso caso específico. Eu acho que diante da situação, que é atípica, eles vão rever isso. Se o cartório ficar fechado, por exemplo, durante 30 dias, não temos como ficar aqui durante 30 dias esperando uma certidão”, comenta Patrícia, que conversou com a reportagem por chamada de vídeo.
“Tem um trem saindo hoje de Kiev às 22h30, mas as duas famílias não podem sair porque não têm os passaportes das bebês e sem esse documento não é possível cruzar a fronteira. Precisamos de ajuda da embaixada para emissão do passaporte”, explica Ross Baird Kasakoff, gerente de relacionamento com o cliente e diretor de marketing direcionado aos clientes brasileiros da Biotexcom, clínica que atende as duas famílias.
No caso de Kelly e Fábio Wilke, moradores do Paraná, o registro de nascimento ucraniano ficou pronto na quarta-feira (23), um dia antes da invasão Russa. No dia seguinte, com o espaço aéreo fechado, o casal se viu preso em Kiev, mesmo com a documentação necessária para o passaporte. “A situação mudou com a invasão e não conseguimos sair. Não tinha carro e nem como se dirigir à embaixada e a orientação deles era para não sairmos para a rua por conta do caos que ficou”, diz Kelly.

Um plano B para tentar deixar o país pelas fronteiras terrestre não é uma opção para nenhuma das duas. Enquanto Kelly acha que se deslocar até outro país sem auxílio do governo brasileiro pode ser ainda mais perigoso do que permanecer no abrigo, Pamella conta que, em conversa com a mãe, a família cogitou uma saída pela Polônia mas chegou à conclusão de ser inviável.
“Primeiro, ainda está sem o passaporte da bebê, o que dificulta. E, além disso, a questão de mobilidade mesmo: a língua falada é diferente, muitas pessoas não falam inglês; a temperatura, está muito baixa para sair com uma bebê recém-nascida; e não conhecem as estradas. A embaixada mesmo recomendou evitar locais que tenham centrais de comunicação, de transporte, base militar, a gente não sabe onde tem isso”, explica a filha que do Brasil aguarda com aflição a chegada da mãe, da irmã mais nova e de seus padrinhos, Fernanda e Leandro.
A realização de um sonho
Para Kelly e Fábio, o tratamento de barriga de aluguel foi uma solução após a perda de três bebês por nascimentos prematuros ocasionados pela condição de incompetência do colo do útero. Já a bebê de Patrícia é fruto de uma segunda união, 28 anos após o nascimento de sua primeira filha, Pamella.
A opção do tratamento de barriga de aluguel está em ascensão em alguns anos para casais com alguma condição de infertilidade. Por ter uma legislação mais liberal que outros países, a Ucrânia passou a ser um destino comum para o processo. Em seu site, uma clínica de barriga de aluguel na Ucrânia diz que 9.832 bebês nasceram por meio de barriga de aluguel nos últimos dez anos.
No Brasil, não há legislação específica para o tratamento de barriga de aluguel. Assim, é comum que brasileiros procurem o processo em solo estrangeiro. Com a incerteza para buscar seus bebês em Kiev, cerca de dez famílias brasileiras se reuniram em um grupo de aplicativo de mensagens para se ajudar com troca de informação sobre a situação de cada um.
Os bebês a caminho
Enquanto a preocupação de Patrícia e Kelly é sair da Ucrânia com suas bebês, outros pais brasileiros que contrataram o tratamento de barriga de aluguel no país se preocupam em como farão para entrar e buscar seus filhos que ainda vão nascer.
“Estamos bem aflitos mesmo, mas vamos ter fé que tudo vai dar certo”, disse Priscila Rodrigues Bogucki, de 39 anos, que está esperando o nascimento do seu filho para meados de março e pretende trazê-lo para o Espírito Santo, onde vive.
“Nossa maior preocupação é como chegar na Ucrânia. Eu e meu marido estamos conversando sobre outras rotas para chegar lá por terra. O mais perto seria a Polônia mas não está simples chegar por nenhum meio de transporte no momento”, comenta Priscila, que mantém a previsão de ir a Kiev com o marido no dia 25 de março. Ela relata ainda que conhece outros seis casos de brasileiros, em contato no grupo de mensagens, cujos bebês vão nascer no próximo mês.
Outro casal que conversou com a reportagem, mas preferiu não se identificar aposta em uma missão especial do Itamaraty para trazer os bebês ao Brasil. “A clínica tem um berçário, inclusive dentro de um bunker deles. Então, talvez eles fiquem cuidando dos bebês lá até os pais conseguirem entrar (no país) para buscar ou até eles conseguirem levar os bebês até os pais”, diz uma das brasileiras cujo bebê deve nascer no início de março.
A CNN procurou o Itamaraty sobre os casos específicos, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.