Batalha de Donbass pode ser maior confronto desde Segunda Guerra; entenda
Pelo menos 90 mil soldados de cada lado devem lutar pelo acesso da Ucrânia ao mar e pela definição do status de uma região que já se encontrava em uma guerra civil
Algumas semanas separaram uma movimentação das tropas russas em direção a Kiev de um aparente “reagrupamento” no leste da Ucrânia — mas as expectativas não contemplavam um recuo russo, e sim uma nova fase da guerra empreendida por Vladimir Putin.
Para os ucranianos, essa etapa já começou e, de acordo com um especialista ouvido pela CNN, pode desencadear o maior conflito entre tropas desde a Segunda Guerra Mundial.
Segundo o comando das Forças Armadas ucranianas, a principal força militar da Rússia se concentra agora em tomar o controle de toda a área das regiões de Donetsk e Luhansk, que compõem a faixa de terra conhecida como Donbass.
“Agora podemos dizer que as forças russas iniciaram a batalha de Donbass, para a qual se prepararam há muito tempo”, disse Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, em um discurso em vídeo na segunda-feira (18) após ataques feitos “ao longo de quase toda a linha de frente das regiões ao leste de Donetsk, Luhansk e Kharkiv”, relatou no mesmo dia o secretário do Conselho de Segurança do país, Oleksiy Danilov.
O exército da Ucrânia está se preparando para um novo ataque russo no lado leste do país desde que Moscou retirou suas forças de perto da capital Kiev e do norte ucraniano no final do mês passado. Além disso, a Rússia também mobilizou um apoio logístico de sua aliada Belarus, segundo relatórios do Reino Unido.
Nesta terça-feira (19), o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, confirmou que Moscou está iniciando uma nova etapa do que chamam “operação militar especial”, e disse ter “certeza que este será um momento muito importante” do conflito.
Batalha será violenta devido às “razões táticas”
Em entrevista à CNN nesta terça, o professor do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF e pesquisador de Harvard, Vitelio Brustolin, avaliou que a batalha deverá ser violenta entre os lados principalmente pela diferença estratégica entre os russos e ucranianos.
“A tática é o que acontece no campo de batalha, e nesse caso os soldados ucranianos tem que manter a linha dos russos restrita a Donbass ou avançar. Os russos convertem a defensiva: se não contra-atacarem, eles usam as estruturas das cidades para se proteger — as cidades se transformam em fortalezas tanto para ucranianos quanto para os russos”.
Vitelio Brustolin avaliou ainda que os ucranianos devem ter mais dificuldades em superarem as forças russas do que o contrário. Isso porque, apesar dos apelos de Volodymyr Zelensky, as armas enviadas pelo Ocidente não chegaram ao leste do país — especialmente a artilharia.
“A artilharia não chegou, e isso faz com que os ucranianos estejam ainda em condições inferiores nesse combate. Os russos têm apoio por terra, mar — Ucrânia não tem mais marinha — e tem duas pontes sob o Estreito de Kerch que ajudam na logística russa”, explicou o professor.
Para Brustolin, com a região do Donbass já em guerra civil desde a tomada da Crimeia pelos russos em 2014 — o que não justificaria uma nova guerra “apenas” pela região –, o movimento russo pode também tentar “completar o cerco e tomar Odessa e Kherson”, localizadas no sul ucraniano, o que tiraria o acesso da Ucrânia ao mar. “90% dos países que não têm acesso ao mar são pobres”, observou.
Por que região do Donbass importa?
- 1 de 17
Soldado ucraniano na linha de frente no Donbass, região leste da Ucrânia. As tropas se preparam para "nova fase" da ofensiva russa na região; veja imagens • Wolfgang Schwan/Anadolu Agency via Getty Images
- 2 de 17
De acordo com um especialista ouvido pela CNN, a batalha na região pode desencadear o maior conflito entre tropas desde a Segunda Guerra Mundial • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
- 3 de 17
“Agora podemos dizer que as forças russas iniciaram a batalha de Donbass, para a qual se prepararam há muito tempo”, disse Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
-
- 4 de 17
O exército da Ucrânia está se preparando para um novo ataque russo no lado leste do país desde que Moscou retirou suas forças de perto da capital Kiev e do norte ucraniano no final do mês passado • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
- 5 de 17
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, confirmou que Moscou está iniciando uma nova etapa do que chamam “operação militar especial”, e disse ter “certeza que este será um momento muito importante” do conflito. • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
- 6 de 17
Forças ucranianas disparam míssil GRAD contra tropas russas na região do Donbass, em 10 de abril de 2022 • Wolfgang Schwan/Anadolu Agency via Getty Images
-
- 7 de 17
Soldado ucraniano com veículo de disparo de míssil GRAD contra tropas russas na região do Donbass; há grande expectativa pelo envio de armas por parte de aliados do Ocidente • Wolfgang Schwan/Anadolu Agency via Getty Images
- 8 de 17
“Estamos preparados para usar qualquer tipo de equipamento, mas ele precisa ser entregue com muita rapidez. E temos a capacidade de aprender a usar novos equipamentos. Mas precisa ser rápido", disse Zelensky • Wolfgang Schwan/Anadolu Agency via Getty Images
- 9 de 17
”A artilharia não chegou, e isso faz com que os ucranianos estejam ainda em condições inferiores nesse combate. Os russos têm apoio por terra, mar — Ucrânia não tem mais marinha — e tem duas pontes sob o Estreito de Kerch que ajudam na logística russa”, disse à CNN o professor do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF e pesquisador de Harvard, Vitelio Brustolin • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
-
- 10 de 17
O movimento russo pode também tentar “completar o cerco e tomar Odessa e Kherson”, localizadas no sul ucraniano, o que tiraria o acesso da Ucrânia ao mar. “90% dos países que não têm acesso ao mar são pobres”, observou Brustolin • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
- 11 de 17
Soldados ucranianos na linha de frente no Donbass em 11 de abril de 2022 • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
- 12 de 17
Soldados ucranianos na linha de frente no Donbass em 11 de abril de 2022 • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
-
- 13 de 17
“É por isso que é muito importante para nós não permitirmos que eles se mantenham firmes, porque esta batalha pode influenciar o curso de toda a guerra”, disse Zelensky sobre a batalha em Donbass • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
- 14 de 17
Soldados ucranianos na linha de frente no Donbass, leste da Ucrânia, em 12de abril de 2022, disparando um projétil de artilharia • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
- 15 de 17
Bunker ucraniano em Donbass • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
-
- 16 de 17
Soldados ucranianos na linha de frente no Donbass em 11 de abril de 2022 • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
- 17 de 17
Tanque na linha de frente no Donbass • Diego Herrera Carcedo/Anadolu Agency via Getty Images
Os eventos de 2014 são cruciais para a situação atual: naquela época, rebeldes apoiados pela Rússia tomaram prédios governamentais em vilas e cidades do leste da Ucrânia. A identificação multiétnica com a Rússia colaborou para inflar um sentimento pró-Kremlin na região. Intensos combates deixaram partes de Luhansk e Donetsk nas mãos de separatistas apoiados pela Rússia.
A Rússia também anexou a Crimeia da Ucrânia em 2014, em um movimento que provocou condenação global. As áreas controladas pelos separatistas em Donbass ficaram conhecidas como Luhansk e República Popular de Donetsk.

Além disso, Putin acusa a Ucrânia de violar os direitos dos russos étnicos e dos que falam russo na Ucrânia, e, em sua justificativa para a invasão do país vizinho, disse que deveria intervir militarmente para proteger essa parte da população, vítima de um suposto “genocídio”, segundo o presidente russo.
Mais de 14 mil pessoas morreram no conflito em Donbass entre 2014 e a invasão da Ucrânia pela Rússia no final de fevereiro de 2022. A Ucrânia disse que 1,5 milhão de pessoas foram forçadas a fugir de suas casas durante esse período, com a maioria permanecendo nas áreas de Donbass que ainda estavam sob controle ucraniano, e cerca de 200 mil se reassentando na região mais ampla de Kiev.
As repúblicas autodeclaradas não são reconhecidas por nenhum governo, exceto a Rússia e seu aliado próximo, a Síria.
*Com informações da Reuters e CNN