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    Novo filme de super-herói israelense da Disney toca na ferida dos árabes

    Mais de 40 anos após a chegada de Sabra, há planos de trazê-la de volta no novo filme do Capitão América; experts dizem que ela possa representar estereótipos ofensivos sobre árabes e desumanização dos palestinos no cinema

    Hadas GoldCeline Alkhaldida CNN* , Jerusalém e Abu Dhabi

    A clássica história em quadrinhos da Marvel de 1981 mostra Hulk, gigante e verde, com lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto ele grita para Sabra, uma super-heroína israelense e agente da agência de espionagem Mossad do país.

    A seus pés, está o cadáver de um jovem palestino, morto em uma explosão causada aparentemente por “terroristas” árabes.

    “O menino morreu porque o povo do menino e o seu povo querem possuir terras! O menino morreu porque vocês não quiseram dividir!”, diz o Hulk.

    Alguns quadrinhos depois, a mulher de traje azul e branco e uma estrela de Davi no peito se ajoelha ao lado do menino.

    “Foi preciso o Hulk para fazê-la ver esse menino árabe morto como um ser humano”, diz o quadrinho. “Foi preciso um monstro para despertar seu próprio senso de humanidade”.

    Sabra, a super-heroína israelense, fez inúmeras aparições nos quadrinhos da Marvel ao longo dos anos, estrelando ao lado de ícones como o Incrível Hulk, Homem de Ferro e os X-Men.

    Mais de quarenta anos após a introdução de Sabra, a Marvel da Disney planeja trazê-la para o filme “Capitão América: Nova Ordem Mundial”, com lançamento previsto para 2024.

    Isso criou um alvoroço entre aqueles que temem que reviver a personagem de Sabra espalharia estereótipos ofensivos sobre os árabes e a desumanização dos palestinos no cinema.

    Os críticos dizem que muitos dos personagens árabes com os quais ela interagiu nos quadrinhos são mostrados como misóginos, antissemitas e violentos, e estão questionando se os retratos perturbadores dos árabes terão um desempenho diferente no filme.

    “Essa história em quadrinhos não sugere nada de positivo sobre como este filme vai se desenrolar”, disse Yousef Munayyer, um escritor e analista palestino-americano baseado em Washington, D.C. “Todo o conceito” de transformar espiões israelenses em heróis “é insensível e vergonhoso”.

    “A glorificação da violência contra palestinos especificamente, e árabes e muçulmanos mais amplamente na mídia de massa tem uma longa e feia história no Ocidente e tem um poder de permanência notável”, acrescentou.

    Waleed F. Mahdi, autor de “Arab Americans in Film: From Hollywood and Egyptian Stereotypes to Self-Representation”, disse que a “aliança EUA-Israel” na narrativa cinematográfica desde a década de 1960 coloca as agências policiais e de inteligência americanas e israelenses como forças do bem “comprometidas em deter a violência que tem sido colocada principalmente como algo ligado a árabes e muçulmanos”.

    “O anúncio da Marvel sobre adaptar a personagem de Sabra é um reflexo desse legado”, disse ele à CNN.

    Um porta-voz da Marvel Studios disse à CNN que “os cineastas estão adotando uma nova abordagem com a personagem de Sabra, que foi introduzido pela primeira vez nos quadrinhos há mais de 40 anos”, acrescentando que os personagens do Universo Cinematográfico da Marvel “sempre são imaginados para a tela e o público de hoje”.

    Mesmo alguns israelenses dizem que Sabra pode não ser uma super-heroína para nossos tempos. Etgar Keret, um autor israelense, roteirista e romancista gráfico, disse à CNN que a personagem original de Sabra foi criado em uma era diferente com uma “história simples e clara”.

    “Esta Sabra foi criada antes de duas intifadas [revoltas palestinas], foi criada antes do fracasso dos Acordos de Oslo – foi criada em uma realidade e estado de espírito totalmente diferentes”, disse ele. “E agora […] é difícil manter esse tipo de ícone de simplicidade”.

    O nome da super-heroína é um apelido para um judeu nascido em Israel ou nos territórios ocupados, e deriva do termo hebraico para o fruto de opuntia [tipo de cacto]. Tem sido amplamente utilizado desde a década de 1930, antes de Israel ser estabelecido.

    Mas a palavra é escrita da mesma maneira em inglês como uma das duas comunidades palestinas no Líbano onde ocorreu um massacre de mais de 1 mil civis palestinos e xiitas libaneses por milicianos cristãos libaneses aliados a Israel durante a guerra Líbano-Israel de 1982 – conhecida como o Massacre de Sabra e Shatila, em homenagem aos lugares em que ocorreu.

    Em 1983, o governo israelense divulgou a Comissão de Inquérito Kahan sobre os eventos que ocorreram nos campos de refugiados e considerou o exército israelense indiretamente responsável.

    A comissão concluiu que o Exército aprovou a entrada dos milicianos na área e não tomou as medidas cabíveis para evitar os assassinatos. Ariel Sharon, então ministro da Defesa, foi forçado a renunciar como resultado das conclusões do inquérito.

    A personagem Sabra, da Marvel, foi criada antes do massacre de Sabra e Shatila e não tem relação com isso, mas o anúncio de trazê-la aos cinemas apenas uma semana antes do 40º aniversário do massacre tocou na ferida dos árabes, que acusam o estúdio de cinema de ser insensível a um dos eventos mais trágicos da história do povo palestino.

    “Não está apenas no momento ou no nome, mas também no fato de que o massacre em si foi liderado por uma [milícia] ligada à Mossad em território sob controle militar israelense”, disse Munayyer.

    “Dado tudo isso, é difícil não concluir que as pessoas da Marvel são abjetamente ignorantes sobre a região, sua história e a experiência palestina, ou que eles deliberadamente pretendiam chutar um povo que vivia sob o apartheid enquanto eles estavam caídos”.

    Embora Sabra não seja a primeira vez que a agência de inteligência de Israel recebe o bom tratamento de Hollywood, essa é a primeira vez que Mossad recebe um status sobrenatural ao nível de uma super-heroína de grande sucesso. Especialistas dizem que é uma vitória de relações públicas para a agência.

    Avner Avraham, ex-oficial da Mossad e fundador da Spy Legends Agency, que presta consultoria para filmes e programas de TV retratando espiões israelenses, disse que o novo retrato ajudará uma geração mais jovem a aprender sobre a Mossad.

    “Esta é a maneira ‘TikTok’, a maneira dos desenhos animados de conversar com a nova geração, e eles aprenderão sobre a palavra Mossad”, disse Avraham. “Isso ajuda o branding. Vai agregar um público diferente”.

    Essa exposição pode até ajudar a Mossad a recrutar fontes e assistência em outros países, acrescentou.

    “O fato de eles terem decidido contratar uma agente da Mossad, Sabra, e não um agente egípcio ou italiano, mostra que a Mossad é um grande nome”, disse Avraham.

    Uri Fink, um cartunista israelense que diz ter criado um personagem de super-herói israelense semelhante em 1978, teme, no entanto, que os “progressistas” que trabalham na Marvel possam transformar a agente israelense em um personagem negativo. “Eles não estão bem atualizados, não têm uma descrição exata do conflito israelense-palestino”, disse ele à CNN.

    Avraham ecoou essa preocupação, especulando que ela pode ser retratada como uma personagem que faz o bem para Israel, mas “coisas ruins para outras pessoas”.

    *Com informações de Michael Schwartz, Abeer Salman e Mohammed Abdelbary, da CNN.

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