Startup indiana pode revolucionar agricultura oceânica com ‘colheitadeira marítima’
A empresa pretende usar as algas marinhas como alimento, bioplástico e biocombustível


Frequentemente usada para embrulhar sushi e dar sabor a sopas, as algas marinhas têm um potencial muito maior – tanto como alimento quanto para uso em uma ampla gama de produtos cosméticos e têxteis a embalagens biodegradáveis e até biocombustíveis.
Normalmente, as algas são cultivadas em cordas ou redes suspensas no oceano, mas as técnicas atuais tornam o cultivo em grande escala quase impossível.
A agricultura oceânica está na “idade da pedra”, de acordo com Shrikumar Suryanarayan, cofundador e CEO da Sea6 Energy de Bangalore e ex-chefe de pesquisa e desenvolvimento da Biocon, uma empresa farmacêutica indiana especializada em medicamentos de origem biológica. “É como usar uma espátula e uma picareta para cultivar terras.”
Fundada em 2010, a Sea6 Energy quer mecanizar a agricultura oceânica com seu “Sea Combine”, um catamarã automatizado que simultaneamente colhe e replanta algas marinhas no oceano.
A máquina viaja para frente e para trás entre as linhas de algas marinhas, colhendo as plantas totalmente crescidas e substituindo-as por linhas recém-semeadas.
Um protótipo está sendo implantado na fazenda de algas da empresa na costa da Indonésia. O país do sudeste asiático tem uma tradição de cultivo de algas marinhas que envolve os moradores amarrando pedaços de algas em cordas e puxando-os para o mar, antes de colher manualmente as linhas, e há um grande apetite pela colheita na região, de acordo com Suryanarayan.
Conforme o desenvolvimento da tecnologia e a ampliação do mercado, a empresa pretende implantar mais Sea Combines, inclusive em seu país natal, a Índia.
Enquanto a indústria global de algas marinhas dobrou de tamanho entre 2005 e 2015 e produziu 33 milhões de toneladas métricas em 2018, a produção intensiva e cara em mão de obra deve impedir o crescimento do mercado, de acordo com a empresa de pesquisa de mercado Fortune Business Insights.
Comida e combustível.
A Sea Combine é apenas “uma ferramenta” na operação mais ampla da Sea6 Energy, diz Suryanarayan. A empresa, que arrecadou US$ 20 milhões em recursos, atualmente usa as algas colhidas pela máquina para fabricar em pequena escala produtos como ração animal e fertilizantes agrícolas, afirma.
Embora Suryanarayan admita que tem sido uma jornada lenta para a empresa, principalmente devido à falta de investimento em seus primeiros anos, ele acredita que ela está agora em um “ponto de inflexão”, já que as bases foram lançadas, a tecnologia desenvolvida e há um interesse considerável em todo o mundo no potencial das algas marinhas para mitigar as mudanças climáticas.
O próximo passo da empresa é ampliar a gama de produtos à base de algas marinhas, começando pelos bioplásticos, que pretende começar a produzir nos próximos três anos.
As algas marinhas são apresentadas há muito tempo como uma alternativa biodegradável ao plástico, com a UE financiando pesquisas sobre o assunto na última década. A startup Notpla, com sede em Londres, já usou algas marinhas para criar embalagens sustentáveis para bebidas e molhos.
Sea6 Energy está nos estágios iniciais de desenvolvimento de seu próprio filme biodegradável para substituir sacolas de plástico e papel. Mas a ambição mais ousada da empresa é converter algas marinhas em biocombustível, ajudando a reduzir a dependência da Índia do petróleo bruto.
Pesquisas científicas realizadas pela empresa mostram que seria tecnicamente viável, mas Suryanarayan admite que ainda há um longo caminho a percorrer antes de se tornar comercialmente viável.
Vincent Doumeizel, diretor do Programa de Alimentos da Lloyd’s Register Foundation, uma instituição de caridade que apoia a pesquisa e a inovação, e consultor sênior do Pacto Global das Nações Unidas (UNGC), a iniciativa de sustentabilidade corporativa da ONU, está cético.
“Precisaríamos de hectares e hectares [de algas] para produzir alguns galões de óleo”, diz ele à CNN Business. “Para mim, produzir algas marinhas para biocombustível é como usar ouro para fazer cascalho.”
Em vez disso, Doumeizel acredita que a Sea6 Energy deve se concentrar em áreas onde as algas marinhas podem fazer uma diferença imediata. A alimentação do gado enriquecida com algas marinhas tem o potencial de reduzir as emissões de metano dos bovinos porque contém compostos que impedem os micróbios no intestino de uma vaca de produzir o gás; os bioplásticos podem contribuir para a descarbonização; e as plantas nutritivas podem ajudar a alimentar a crescente população mundial, diz ele.
Mas, primeiro, o investimento da indústria precisa ser acelerado, diz Doumeizel, acrescentando que acolhe os esforços das empresas que desenvolvem tecnologia para o cultivo em escala industrial.
A Sea6 Energy não está sozinha nisso. A empresa norueguesa Seaweed Solutions projetou o “Seaweed Carrier”, uma estrutura em forma de folha que pode cultivar grandes quantidades de algas marinhas em águas profundas, e a AtSeaNova, com sede na Bélgica, desenvolveu uma máquina flutuante de semeadura e colheita.
“A agricultura marinha é uma das formas de melhorar a sustentabilidade do planeta”, diz Suryanarayan. “Nosso trabalho e jornada serão bem realizados se mostrarmos que é economicamente viável.”