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    Ex-diretor-geral da OMC conta à CNN o segredo de como negociar com Trump

    Roberto Azevêdo comentou ao WW sobre experiências pessoais no comércio exterior, reação do Brasil e impactos na economia norte-americana

    João Nakamurada CNN , em São Paulo

    Como diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) entre 2013 e 2020, Roberto Azevêdo esteve frente a frente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para negociar com o republicano durante sua primeira passagem pela Casa Branca.

    À época, Azevêdo foi a Washington em busca de aproximar os EUA da OMC. O hoje presidente global de operações da Ambipar relembrou o caminho que escolheu para conquistar a atenção de Trump: “Trazer uma vitória para ele”.

    “Quando fui conversar com ele, a primeira coisa que coloquei na minha cabeça é que tenho que trazer uma vitória pra ele, mas que não seja minha derrota. Comecei a expor a necessidade de os Estados Unidos se engajarem na OMC, e que isso era bom pra ele. Acho que seria uma tremenda vitória reformar o sistema de dentro, a conversa foi boa”, contou Azevêdo ao WW.

    Com experiência de décadas em negócios e relações comerciais internacionais, o ex-OMC avalia que a negociação mais difícil é aquela na qual não há “química” entre as partes. “A racionalidade desaparece”, enfatizou.

    Desse modo, considerando as divergências entre a gestão Trump e a de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), além da dinâmica estabelecida pelo republicano em sua diplomacia, “em que as decisões são quase pessoais”, Azevêdo afirmou que “é muito difícil [estar preparado]” para essas negociações.

    Mas reforçou que o que falta numa conversa com o norte-americano é “entregar para ele uma vitória da qual você também se beneficia”.

    Reação do Brasil

    Autoridades dos EUA e brasileiras terão uma reunião nesta sexta-feira (14) para debater o atual cenário comercial entre os dois países, sobretudo a questão das tarifas sobre o aço e o alumínio.

    Na virada de terça-feira (11) para quarta (12), o governo Trump levantou taxas de 25% sobre a importação dos metais. O Brasil é o 2º maior fornecedor de aço e ferro dos EUA, perdendo apenas para o Canadá.

    Azevêdo reiterou que “é difícil de lidar com um cenário desse”, e que “o Brasil não é o único que está sendo surpreendido”, destacando os ataques que o presidente dos EUA direcionou a dois de seus maiores parceiros comerciais e vizinhos: o México e o Canadá.

    Ainda assim, enfatizou sua certeza de que o Itamaraty vem se preparando para isso desde o começo.

    “O governo brasileiro vai ter que entender essa dinâmica e vão tentar da melhor maneira possível negociar num ambiente que é quase o pior possível para o negociador”, pontuou.

    O ex-diretor-geral da OMC ainda apontou que grande parte dos avanços na relação entre EUA e Brasil foram permitidos pela iniciativa do setor privado.

    O setor privado brasileiro também buscou se posicionar frente à tarifa do aço e do alumínio.

    O Instituto Aço Brasil diz apostar no diálogo para reverter taxa — assim como foi feito em 2018, quando Trump, em seu primeiro mandato, também havia levantado restrições às compras da liga metálica.

    Já a Confederação Nacional da Indústria (CNI) vê como prejudicial a uma “parceria histórica” a tarifa, e aponta para uma “total falta de percepção” dos EUA sobre a relação que possui com o Brasil.

    Impacto nos EUA

    Comparando o primeiro mandato do republicano com o atual, Azevêdo observou que “os eixos centrais” da doutrina Trump foram mantidos: desregulamentação, redução de impostos, protecionismo e a busca pela reindustrialização dos EUA.

    “Mas muita coisa mudou do Trump 1″, pontuou. “No primeiro momento, havia um cuidado maior com o impacto disso na economia americana. […] A equipe dele tinha muita gente que entendia o que ele queria, mas não compartilhava 100% das ideias. Ele prestava muita atenção no mercado de capital. […] Isso mudou muito hoje.”

    Para Azevêdo, são óbvios os argumentos do porquê não seria benéfico investir nesta “suposta guerra comercial”.

    “O comércio é uma via de mão dupla. […] E o argumento é evidente. Agora, ele entender e aceitar é outra conversa. Ele se recusa a aceitar que é o consumidor americano que vai pagar pelas tarifas, diz que quem vai pagar é o exportador. É uma irracionalidade de conveniência”, disse.

    O ex-OMC apontou que o cenário atual ainda não é o ponto final da guerra comercial ventilada por Trump.

    “Ainda temos alguns passos na implementação das medidas, tem muita negociação. Meu temor é quando essas discussões forem escalando e acabar numa perda de controle. Aí, efetivamente, estaremos em uma guerra comercial”, concluiu.

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