OPINIÃO
Copom eleva Selic para 14,25% e sinaliza desaceleração no ritmo de altas


O Copom elevou a Selic para 14,25% em sua última reunião conforme prometido. A principal novidade da reunião veio no comunicado, que sinaliza uma desaceleração no ritmo de alta de juros. O Copom antevê um ajuste menor na próxima reunião, mas ainda não está claro se será de 0,75, 0,50 ou 0,25 ponto percentual. Hoje, uma alta de 0,50 ponto percentual, levando a Selic para 14,75%, parece o cenário mais provável para a próxima reunião.
Eventualmente, pode haver mais uma alta de 0,25 ponto percentual depois desta, encerrando o ciclo em 15%. O Copom registrou “sinais incipientes” de desaceleração da atividade, o que funciona como um duplo eufemismo. A ideia é mostrar que há indícios de desaceleração, mas sem plena convicção no momento.
No balanço de riscos foram destacados três fatores de alta para a inflação: desancoragem das expectativas, hiato do produto muito fechado com mercado de trabalho aquecido e desvalorização cambial, esta última influenciada por preocupações fiscais e com o governo Trump.
Por outro lado, dois fatores podem atuar no sentido contrário: uma desaceleração mais forte da atividade econômica no Brasil e a desaceleração global, causada por tarifas e problemas no comércio internacional. O Comitê também reforçou a importância de acompanhar a questão fiscal e seus impactos sobre a taxa de câmbio, que por sua vez afeta a inflação.
O Fed anunciou também nos EUA a manutenção da taxa de juros em 4,5%. O mercado sempre avalia se o Fed adotou um tom mais hawkish (inclinado a manter ou subir os juros) ou mais dovish (inclinado a reduzi-los). A leitura da decisão foi de que o Fed se mostrou marginalmente dovish, ou seja, mais inclinado a cortes de juros.
O mercado precifica agora dois cortes em 2024, o primeiro em junho e o segundo corte depois de julho. Jerome Powell destacou que o Fed ainda não tem clareza sobre o ponto exato em que a política monetária se encontra. A instituição pretende aguardar mais tempo antes de tomar grandes decisões.
Entre os fatores que afetam a economia, Powell mencionou a política de restrição à imigração e as tarifas, ambos inflacionários, mas também destacou que as tarifas podem gerar incertezas e contribuir para uma recessão. Além disso, há o impacto das demissões no setor público americano, que têm efeito recessivo.
O Fed também anunciou uma redução no ritmo do aperto quantitativo. O banco central estava reduzindo o balanço em US$ 25 bilhões por mês, e agora esse volume cairá para US$ 5 bilhões. Isso significa que o Fed manterá um balanço mais inflado, o que aumenta a liquidez no sistema financeiro. Essa decisão foi interpretada como uma medida dovish, pois amplia a oferta de liquidez na economia.
O Fed revisou para baixo a projeção de crescimento do PIB e aumentou levemente a previsão de inflação para os próximos meses. No entanto, a redução do PIB foi maior do que a alta projetada para a inflação, o que indica uma preocupação maior com a atividade econômica do que com o risco inflacionário.
Além disso, a projeção de desemprego foi revisada para cima. Com isso, a leitura geral foi de um Fed mais preocupado com uma desaceleração excessiva da economia. No final do dia, o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos aumentou, já que o Copom elevou a Selic e o Fed manteve a taxa americana inalterada.
Esse diferencial já estava acima da média histórica antes dessa última reunião, e sua ampliação tende a favorecer a valorização do real. Sempre que o diferencial de juros está muito abaixo da média, o real se desvaloriza. Quando está acima, o real tende a se apreciar o que também ajuda o Copom, pois um câmbio mais valorizado reduz pressões inflacionárias.