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    Gonzalo Vecina
    Coluna

    Gonzalo Vecina

    Médico sanitarista, fundador e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária

    OPINIÃO

    A reunião do G-20 e a COP 29 – como caminha a humanidade

    Nesta semana que passou tivemos intensa movimentação no Rio de Janeiro onde se realizou a reunião do G-20 – reunião que recebeu os países mais ricos do mundo e muitos países convidados. Paralelamente ocorreu outra reunião fundamental em Baku no Azerbaijão que discutiu a questão climática – a COP-29. Centenas de lideres se reuniram nestas cidades em busca de propor saídas paras as múltiplas crises que estamos vivendo.

    As guerras da Ucrania, de Gaza, do Libano, a existência de quase um bilhão de cidadãos que todos os dias vão dormir sem se alimentar, as graves questões climáticas decorrentes das agressões ao meio ambiente que tem como consequência a perda de biodiversidade, os eventos climáticos extremos, novas doenças zoonóticas como foi a COVID-19 e as novas doenças provocadas pelas variações bruscas da temperatura.

    Em Baku foi realizada a COP 29 e que será seguida da COP 30 em Belém no ano que vem. O que não se resolveu lá, terá que ser resolvido no Brasil. E a COP 29 deixou grande parte da agenda por resolver. Boa parte de seus participantes eram membros das grandes empresas que vivem de alimentar o vicio da terra em petróleo!

    Os cálculos efetuados para conseguir reduzir a emissão de gases de efeito estufa indicam a necessidade de investir cerca de U$ 1,35 trilhão ao ano e a conferencia quase termina indicando apenas U$ 50 bilhões e na ultima hora o numero chegou a U$ 300 bilhões. O acordo foi esse – U$ 300 bilhões que deverão ser repassados para os países pobres, que não são os responsáveis pelo que se está vivendo, para que eles possam passar por esse tempo sem provocar a destruição que os países ricos já provocaram. A questão é como salvar o mundo reduzindo a desigualdade existente. O prazo desta rodada vai ate 2035.

    São dois problemas e não podem ser enxergados como problemas da esquerda ou da direita. São problemas da humanidade, derivados de como vivemos na terra nos últimos tempos, ou melhor de como vivemos DA terra.

    Os sinais do colapso são evidentes, somente os terraplanistas não os vem. E não dá para resolver esses problemas gerando mais riqueza – o mundo não aguenta gerar mais riqueza e agora a saída é redistribuir a riqueza existente. Ajudar os países do Sul Global.

    Sim existem países e governantes que acham que se dane o mundo. Aqui onde estou sobreviverei. Parece que esta é a saída dos Trumps de plantão e eles existem. A questão será como conduzir o mundo para uma saída do desastre que será inevitável.

    Em Baku se discutiu uma saída olhando para 2035. Se espera que as COPs que ate hoje não conseguiram encontrar de fato os caminhos para reduzir a destruição da terra consigam desenhar como chegaremos em 2035 com U$ 1,35 trilhão sendo colocado a disposição de um mundo com maior controle da emissão de gases de efeito estufa. E com menor desigualdade.

    No Rio o G-20 tinha um horizonte mais próximo. Mas buscava reduzir as desigualdades entre os países mais ricos, embora entre eles estivessem a Índia, a África do Sul, o Brasil… Mas são as 20 maiores economias do mundo que se sentaram para discutir como se pode reduzir o sofrimento dos pobres, pelo menos reduzir a fome, como criar novas regras de convivência entre os países. Tudo o que se construiu a partir do final da segunda guerra mundial, não está funcionando. A ONU e sua estrutura morre nas decisões do Conselho de Segurança a partir das decisões de cinco de seus membros que tem poder de veto. E aí as guerras continuam e as decisões de governança global são ignoradas.

    Vejam o que foi a questão da COVID-19. Não existia duvida de que para parar a pandemia deveríamos reduzir o numero de casos, para reduzir a velocidade de aparecimento de novas variantes. E a saída para isso era vacinar. Os países da comunidade europeia e os USA compraram vacinas suficientes para se vacinar cinco vezes. E a África e o sudeste asiático não receberam as vacinas ate hoje. Veja o que está ocorrendo com a Mpox – os casos continuam crescendo no Congo, no Burundi e somente são noticia quando um europeu retorna ao seu país com a doença. Não se discute distribuir a vacina nos países pobres onde a doença está grassando. Alias esquecemos que vacina é essa (existem três) que foram desenvolvidas para tratar a varíola humana ou seja a única explicação para elas existirem, é uso do vírus que somente três países tem, como arma de guerra!

    Se o mundo tivesse alguma governança, a Organização Mundial da Saúde, composta por representantes de todos os países tomaria as decisões de distribuição das vacinas, de produção de medicamentos e estas decisões serão efetivadas com as consequentes alterações no andamento das epidemias. O mundo necessita dessa governança para enfrentar as grandes crises que estamos vivendo – das doenças, em particular das zoonóticas, da fome, dos eventos climáticos extremos.
    Temos que discutir como sair dessa paralisia.

    E não será com essa ideia moderninha do One Health que iremos a algum lugar. Uma saúde, Saúde única, não resolve a questão. Pior embaralha o problema pois ignora que os determinantes econômico-sociais da doença é que tem que ser identificados e combatidos. A ideia da One Health somente poderá ser levada a sério se conseguirmos entende-la dentro do contexto econômico social. Não se ira a lugar algum olhando para a saúde animal, vegetal e ambiental e ignorando a realidade econômico social.

    Verdade que nas duas reuniões brilhou a diplomacia brasileira construindo ambientes favoráveis a que um mínimo de decisões fossem tomadas no sentido de diminuir as crises que enfrentamos.

    Foi pouco mas foi o possível. Melhor que somente acumular desastres.

    Mas temos que aprender como construir soluções mais abrangentes e coletivas. Temos que aprender que o futuro do mundo dependera do que conseguirmos propor e construir. E fazer isso vencendo os negacionistas.

    Será possível? O próximo pais sede do G-20 será a África do Sul e a próxima sede da conferencia do clima será em Belém aqui no Para. Continuaremos expostos e espero capazes de auxiliar a caminhar na construção de um mundo melhor e que todos concordemos que um mundo melhor é um mundo mais igual.