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    Estagflação? Cenário de crescimento baixo e inflação alta volta a rondar Brasil

    Pandemia, dólar e instabilidade política levam a onda de revisões do PIB, para baixo, e dos preços, para cima

    Juliana Elias, , do CNN Brasil Business, em São Paulo

    O tombo de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado e a certeza de que uma queda desse tamanho não se repetirá tão cedo deixou por um instante a impressão de que o pior da crise causada pela pandemia ficou para trás. Mas a realidade pode não ser bem assim. 

    A depressão histórica do ano passado, de fato, ficou para trás, mas isso não significa que 2021 será fácil. As expectativas para o crescimento econômico deste ano, que já estavam fracas, começam a ser paulatinamente revisadas para baixo por economistas, analistas e investidores, desanimados em boa parte pelo avanço rápido da pandemia e lento das vacinas, o que prolonga também a agonia econômica.

    Ao mesmo tempo, do outro lado, as expectativas para inflação estão todas sendo revisadas para cima, numa compreensão cada vez mais ampla de que o choque de preços que se viu no ano passado nos alimentos não é mais nem tão pontual, nem tão temporário quanto se chegou a acreditar

    Essa combinação oposta de fatores está desenhando, mais um vez, um cenário que não é novidade para o Brasil e que é perverso para a população: o de crescimento baixo com inflação alta.

    Na prática, significa não só que a renda das pessoas e a produção das empresas não crescem, como também terão que enfrentar preços mais caros. Combustíveis, alimentos e serviços públicos como de luz e água são alguns que devem seguir subindo para os consumidores neste ano.

    Preços em alta, diz a teoria, costumam ser sintoma de uma economia que está aquecida, tanto quanto uma economia fraca, com a renda e o consumo em baixa, deveria resultar em inflação também fraca

    No Brasil da pandemia, porém, os preços seguiram subindo mesmo com desemprego recorde e renda em queda, resultado de uma tempestade de fatores que misturam dólar caro, produtos básicos em alta no mercado internacional, indústrias que sofreram com falta de insumos e uma injeção de estímulo cavalar, mas passageira, que veio com o auxílio emergencial no ano passado. 

    O problema da inflação muito alta é que ou ela deixa as coisas muito caras e derruba o consumo, ou obriga o Banco Central a subir juros para controlá-la, o que também derruba o consumo. De um jeito ou de outro, acaba redundando em crescimento ainda mais baixo, e isso só piora os prospectos para 2021. 

    A inflação é mais um limitador do crescimento e, em um contexto de câmbio muito depreciado, obriga o Banco Central a reagir e a subir os juros mais rápido, ou seja, retirar o estímulo mais cedo

    Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria

    Alta dos juros

    A Selic, a taxa básica de juros do Brasil, está em 2% ao ano, o menor nível de sua história e também muito abaixo da inflação, o que deixa os rendimentos negativos e é uma bomba de estímulo para que os capitais migrem do mercado financeiro para a economia real. A estimativa de economistas é que, num ambiente normal, sem a necessidade de estímulos extras, os juros brasileiros deveriam estar por volta dos 6%. 

    Quanto mais abaixo eles estiverem desse nível, mais estímulo o Banco Central está dando para que a economia cresça. É essa diferença que deve ser reduzida bastante já neste ano por conta da inflação, mesmo com a economia ainda precisando da ajuda.

    A Tendências Consultoria, que esperava a Selic em 4% até o final deste ano, já fala na taxa a 4,5% até lá, para uma inflação que, nas suas projeções mais recentes, também pode ir até os 4,5%. O resultado repetiria o do ano passado e seria o maior desde 2016.

    O PIB, por sua vez, teve a projeção reduzida de 2,9% para 2,7% pela Tendências, com dois trimestres de queda já praticamente encomendados para este primeiro semestre. 

    Os números para o ano ainda são positivos, mas têm entusiasmado pouco os economistas, já que a alta virá basicamente por um efeito estatístico, por conta da base baixa do ano passado, do que por evolução de fato. Na prática, haverá pouca ou nenhuma riqueza nova sendo gerada no país.

    Rodada de revisões 

    Andrea Damico, economista-chefe da gestora de investimentos Armor Capital, é ainda mais pessimista. Para ela, a inflação deste ano será de no mínimo 4,6% – “mas isso pode acabar mais alto e há um risco bem grande de chegar a 5%”, diz. 

    Nesta toada, os juros podem acabar em 5% ou até mesmo nos 6% ainda neste ano, ceifando de vez as expectativas de uma recuperação econômica mais rápida ou mais robusta. 

    Não tem como a piora da pandemia não afetar a atividade econômica. Há uma correlação muito elevada entre as duas coisas, por conta da mobilidade. Não é só porque as pessoas são obrigadas a ficar em casa, elas também ficam porque têm medo.

    Andrea Damico, economista-chefe da Armor Capital

    As duas economistas não estão sozinhas nas revisões. O Boletim Focus, relatório do Banco Central que recolhe semanalmente as projeções de uma centena de casas de análise, aponta uma tendência geral de revisões para cima nos preços e para baixo no PIB. No boletim mais recente, a projeção média para a inflação subiu para 3,98% e, para o PIB, caiu para 3,26%. 

    Estagflação?

    Apesar do coquetel desagradável, de pouco PIB e muita inflação, Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultora, ainda afasta o rótulo de “estagflação” –o termo ficou famoso nos anos de 1970, quando economias importantes como Estados Unidos e Reino Unido viveram anos de preços fora do controle com baixo crescimento.

    “Estamos falando de uma atividade fraca, mas que ainda será de um pequeno crescimento e uma recuperação”, disse. “A inflação está subindo mas também ainda está dentro da meta; não é um cenário de inflação saindo completamente do controle.”

     

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