Recessão à vista nos EUA?
Investidores foram da euforia ao pânico com a economia americana


O que que aconteceu! Em um curtíssimo espaço de tempo — curto até para o padrão semineurótico dos mercados financeiros — os investidores foram da euforia ao pânico com a economia americana.
Estaríamos enfrentando a possibilidade concreta de uma recessão na maior economia do mundo?
Para responder essa pergunta temos que primeiro identificar as causas dessa mudança abrupta de humor.
Sem dúvida a maior (mas não única) causa é a quebra de expectativas do mercado pelo governo Trump sobre sua política econômica em duas dimensões.
Primeiro, a agressividade de Trump na política tarifária está sendo maior do que o mercado esperava. O mercado entendia que havia duas visões distintas sobre tarifas dentro do governo.
De um lado, os “radicais”, como Peter Navarro, que acreditam em tarifas como um fim em si.
Do outro lado há o grupo pragmatista, como os secretários Scott Bessent e Howard Lutnick, que não são contra tarifas, mas a tratam como parte de um processo de negociação.
Até agora, e contrariando a expectativa dos mercados, os radicais estão ganhando o argumento.
A outra surpresa tem sido a agressividade de corte de gastos e demissões no setor público patrocinados pelo DOGE de Elon Musk.
Aqui, diferente da política tarifária, não está claro que por si só se trata de uma política que desagrada o mercado, se tratando de um ajuste fiscal via corte de gastos.
O problema é que se trata de algo que impacta negativamente a demanda agregada, o que, junto com os efeitos negativos sobre a atividade das tarifas, aumentam o risco de a economia cair em um período de baixo crescimento — o que o mercado já espera nas suas projeções, ou de recessão.
Os últimos dados mostram a economia americana desacelerando no início do ano, mas não caindo em recessão.
Uma das peculiaridades do momento atual é a divergência entre “hard data” — os dados concretos de atividade (ainda que sempre defasados) — e “soft data”, como índices de confiança, onde vários desses já estão em território recessivo.
Uma dificuldade é como interpretar o derretimento do “Trump Trade”.
As correções de preços vistas até agora apagaram os ganhos desde a eleição, mas as bolsas em geral ainda apresentam altas em relação a um ano atrás (9,3% no caso do Nasdaq, por exemplo).
Estariam, então, as bolsas indicando um risco concreto de recessão ou simplesmente corrigindo uma valorização historicamente extrema?
Há vários fatores que, a meu ver, estão sendo desprezados neste momento de pessimismo extremo.
Os EUA são uma economia continental relativamente fechada, onde 77% da produção vem do setor de serviços e somente 20% do setor industrial.
A soma de exportações e importações representa ao redor de 25% do PIB.
O último índice ISM de atividade do setor de serviço saiu em 53,5, superando as expectativas e acima do 50 que indica estabilidade no nível da atividade.
As reações dos mercados fora das bolsas apresentam condições financeiras mais expansivas, com queda do dólar e das taxas de juros.
O Treasury de dez anos chegou a bater em 4,8% no início do ano, e agora está ao redor de 4,25%. O índice DXY do dólar americano está caindo 7% desde o início do ano.
Outro fator é que, diferente do período pós-crise de 2008, desta vez o Fed tem bastante espaço para baixar o fed funds, hoje em 4,5%.
O chefe do Fed, Jay Powell, ainda tem mostrado reticência em agir, dado o potencial efeitos inflacionários da política tarifária, mas não há dúvidas que se o “hard data” indicar risco de recessão, o Fed vai rapidamente cortar a taxa de juros.
Uma diferença do segundo mandato de Trump em relação ao primeiro foi que, no primeiro, ele primeiro cortou impostos para depois “declarar” sua guerra comercial.
No segundo mandato ele tem feito o contrário, mas dado o mal-estar dos mercados, já há várias vozes na administração argumentando para disparar o mais rápido possível a agenda de cortar impostos e desregular a economia.
Não devemos também acreditar piamente na última teoria sobre Trump, que seja por falta de “aparadores” políticos ou por não ter como pleitear reeleição, ele então não dá nenhuma importância às pesquisas de opinião ou as oscilações da bolsa.
Se há uma coisa que sabemos sobre Trump, é que ele gosta de ser idolatrado. O tal do “Trump put” ainda não foi acionado, mas isso não quer dizer que ele não existe.
As movimentações externas de Trump também tem – independente do dano que está sendo feito a tal “ordem internacional liberal” – forçado a mão dos europeus e chineses a aumentar o nível de gastos fiscais – e assim a previsão de crescimento dessas economias.
Em parte, um maior crescimento chinês e europeu vai compensar, a nível global, uma queda no crescimento americano.
Não estamos vendo neste caso uma queda sincrônica de crescimento, como foi em 2008 e 2020.
Finalmente, não podemos esquecer no meio de toda essa volatilidade que estamos vivendo um momento tecnológico revolucionário com os avanços na inteligência artificial.
Podemos ter argumentos sobre o quanto disso está corretamente precificado os preços dos ativos, mas nada do que está sendo feito por Trump altera essa dinâmica que ainda será positiva para os níveis de investimentos e produtividade da economia.
Em resumo, há vários fatores mitigantes já em jogo para compensar as forças recessivas das políticas de Trump.
Certamente devemos ver um período de crescimento baixo, e choques adicionais podem levar esse avião em voo raso a bater no chão. Mas por ora os temores de recessão na economia americana parecem exagerados.