Análise: Como Trump acabaria a guerra na Ucrânia em um dia
Plano da Otan "à prova de Trump" se revelou um fiasco e aliança pode pagar para ver como o republicano encerraria o conflito em 24 horas


A movimentação da Otan nesta semana para aprovar um pacote de ajuda militar à Ucrânia “à prova de Trump” evidenciou o que muitas potências ocidentais temem, mas evitam dizer em voz alta: Donald Trump tem grandes chances de voltar à presidência nos Estados Unidos e isso pode significar a derrota da Ucrânia.
Em maio de 2023, o ex-presidente dos Estados Unidos disse em entrevista à CNN que acabaria com a guerra na Ucrânia em um dia se fosse eleito. A frase não é nova, mas continua trazendo desdobramentos.
Logo que o republicano fez a declaração, analistas avaliaram que dizer que a guerra se resolveria em um dia era o mesmo que dizer que a Rússia venceria o conflito. E não é preciso decifrar a mente contraditória de Trump para entender por que essa foi a interpretação feita.
A Rússia já disse que não vai devolver nenhum território ucraniano. E Trump tem reiterado que não vai ajudar Kiev, se for eleito. Sem ajuda americana à Ucrânia, como a guerra acabaria em 24 horas? Dificilmente com uma vitória ucraniana.
No início do mês passado, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, viajou aos EUA e, após se reunir com Donald Trump na Flórida, dissipou qualquer dúvida: “Trump não dará um centavo à guerra Ucrânia-Rússia. É por isso que a guerra terminará”, disse Orban.
Na mesma entrevista em que disse que encerraria a guerra em um dia, Trump foi questionado sobre quem ele desejaria que ganhasse o conflito e não respondeu. Também foi perguntado sobre o fornecimento de recursos à Ucrânia e disse não apenas que não se comprometeria a enviar ajuda, como declarou que os americanos estão “doando equipamentos e munição que não têm” aos ucranianos.

Em fevereiro passado, Trump reforçou que a guerra na Ucrânia deve terminar e reiterou sua desaprovação em enviar mais ajuda ao exterior.
O ex-presidente americano também tem defendido abertamente sua oposição ao pacote de apoio militar à Ucrânia no valor de US$ 60 bilhões, aprovado no Senado dos EUA. O projeto está travado na Câmara dos Representantes justamente porque republicanos aliados de Trump têm acatado suas ordens.
Para dar mais algumas pistas de como Trump acabaria com a guerra, o ex-presidente disse que encorajaria a Rússia a fazer “o que quisesse” a qualquer membro da Otan que não atendesse às regras de investimentos em defesa. Os 32 países da aliança militar entre europeus e americanos devem cumprir a meta de gastar pelo menos 2% do PIB em defesa, mas apenas 18 devem respeitar a regra neste ano. Na visão de Trump, os americanos seguram a aliança nas costas.
As críticas à Otan não são novas. Quando era presidente dos Estados Unidos, Trump já criticava a aliança militar e outros organismos multilaterais, como forma de defender seu slogan “America first” e sua visão protecionista.
A sete meses das eleições nos EUA, Trump lidera as pesquisas em seis dos sete estados americanos decisivos, segundo levantamento do jornal Wall Street Journal.
E não é preciso pesquisas para mostrar que dentro da Otan a vitória do republicano também é a principal aposta. Na cúpula desta semana, que marcou o aniversário de 75 anos da aliança, Stoltenberg defendeu o plano de ajuda à Ucrânia à prova de Trump, segundo fontes, justamente para proteger a Otan “contra os ventos da mudança política”. Leia-se: a derrota de Joe Biden.
A proposta de levantar 100 bilhões de euros de ajuda à Kiev para os próximos cinco anos exigiria o apoio de todos os 32 membros, mas se revelou um fiasco e foi apoiada por apenas três países: Reino Unido, Polônia e Letônia.
Com o plano longe de se concretizar e as grandes chances de o ex-presidente voltar à presidência nos EUA, a Otan corre o risco de pagar para ver a guerra acabar em 24 horas, ao modo de Trump