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    Phelipe Siani
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    Phelipe Siani

    Empreendedor, palestrante e âncora na CNN Brasil desde 2019

    Será que a gente precisa de mais tecnologia ou de mais integração?

    Se os sistemas de tecnologia não falarem a mesma língua pra gerar resultado prático, a gente corre o risco da tecnologia não ser levada a sério no curto prazo

    O combinado do começo dessa semana foi simples, algo que eu já tô bastante acostumado a fazer: ser o apresentador de mais um evento de mercado, mediando conversas de educadores, agentes públicos e empresários. Nesse caso, o meu trabalho é o de conduzir as conversar e tentar sempre extrair o que de melhor os especialistas têm pra oferecer.

    É um trabalho quase artesanal, que segue um roteiro específico, mas que demanda habilidades de filtrar e traduzir as melhores e mais úteis informações pro público. É basicamente pra isso que esses eventos existem. Pra isso e, sempre que possível, pra gerar negócios de todos os lados.

    É um trabalho que eu gosto muito de fazer, porque eu nunca saio de um evento como esse do mesmo jeito que eu entrei. Juntar, nas mesmas rodas de conversas, tanta gente capacitada faz com que a gente amplie muito a nossa compreensão sobre assuntos importantes pra caramba, mas que, muitas vezes, a gente deixa passar pelo excesso de coisas na cabeça.

    E, dessa vez, as discussões orbitaram ao redor de dois temas fundamentais, principalmente pra quem vive em grandes cidades: segurança pública e mobilidade, sempre olhando pelo viés da tecnologia.

    Eu me considero um cara que acompanha relativamente bem o mercado macro de Tech e os principais assuntos desse segmento, mas a troca ali levou o meu entendimento sobre esses assuntos pra caminhos que precisam ser, sim, cada vez mais discutidos.

    Em termos de tecnologia na segurança (estatisticamente, a principal preocupação dos brasileiros hoje), os especialistas e agentes públicos falaram sobre o que de mais avançado já existe e o que a gente pode esperar pra um futuro próximo quando o assunto é aplicação prática de inteligências artificiais generativas e afins.

    Mas ali, um ponto específico me pegou demais. De nada adianta ter as mais avançadas plataformas, os gadgets mais tecnológicos, se uma coisa não conversar minimamente com a outra. Esse é um desafio que, em termos de avanços tecnológicos, chega em absolutamente todas as áreas do conhecimento, principalmente quando a gente fala de grandes estruturas, como o tratamento de dados de milhões de moradores de uma cidade, de milhões de carros, residências, pagamentos de tributos, facilitações de todos os tipos, que só vão trazer benefícios verdadeiros pros cidadão se cavalgarem em sistemas que, literalmente, falam o mesmo idioma e cooperam entre si.

    Se o que eu tô te falando não tiver fazendo muito sentido pra você, deixa eu trazer um exemplo prático… imagina o seguinte cenário, a prefeitura de uma cidade com 1 milhão de habitantes instala nas ruas câmeras de segurança que conseguem ler as placas dos carros.

    Muita gente não vai gostar dessa iniciativa, porque isso vai facilitar a cobrança de multas por atraso no pagamento de impostos tipo IPVA e licenciamento. Mas, como essas câmeras têm essa tecnologia de identificação das placas, elas também vão conseguir identificar que um carro roubado tá rodando pelas ruas com o ladrão no volante.

    Mas isso só acontece se o sistema da prefeitura (municipal) for de alguma forma interligado com os das polícias civil e militar (estadual). Se isso não acontecer, a gente tem nas ruas equipamentos super avançados que até encontram problemas graves, mas, por falta de diálogo entre as esferas de poder, nada é feito do ponto de vista prático.

    Durante o evento, a gente analisou dados que colocam os drones como os equipamentos tecnológicos mais comuns entre as forças de segurança. De novo… fiscalização aérea que pode ser útil pra polícia militar, polícia civil, guarda civil, bombeiros, segurança privada. Mas como fazer todo mundo ter acesso ao mesmo tempo a tudo isso? É aí que a tecnologia se rende a um dos mais analógicos artifícios humanos: a conversa. Literalmente.

    Pode parecer algo extremamente simples, mas fazer com que esses bancos de dados se conversem pode ser uma tarefa complexa e desgastante. Principalmente quando se coloca nesse balaio a questão política. A gente pode tá falando de dados municipais que buscam correlação com informações estaduais ou federais de governos rivais, de partidos de oposição.

    Se não houver vontade política em todas essas pontas, o bem comum fica de lado por uma possível máxima mesquinha de um político que eventualmente pode achar que essa “facilitação” vai beneficiar o opositor. Entendem as ramificações que isso pode ter e o quão sensível é essa temática?! No mundo ideal, esse tipo de discussão nem deveria existir, mas, na prática, é o que se vê em casos nada raros.

    O mesmo vale pra questões de mobilidade. Hoje, com redes gigantescas de satélites e equipamentos integrados em ônibus e carros de aplicativo, dá pra saber com uma exatidão absurda não só quais trechos são mais amigáveis ou onde as massas de trânsito tão mais concentradas.

    Hoje também rola de usar, por exemplo, sistemas de inteligência artificial generativa pra cruzar todo esse volume bizarro de dados com previsões climáticas e prever comportamentos futuros dos meios de transporte de acordo com a evolução do dia numa cidade grande.

    E saber como as grandes populações conseguem chegar mais rápido do ponto A pro ponto B é entender como a economia dos municípios pode ser mais eficiente, como os governos conseguem gerar mais riqueza pra população, que vai retornar esse investimento pros cofres públicos em forma de impostos.

    Mas como fazer absolutamente todo mundo ter acesso a tudo de um jeito que essa estrutura funcione da maneira mais otimizada possível? Essa é a pergunta de Bilhões com B maiúsculo.

    A lição que eu tirei desse evento foi que, talvez (mas muito provavelmente), a gente tenha chegado num momento em que a tecnologia já tenha à disposição boa parte dos equipamentos físicos que ela precisa pra fazer o futuro virar presente. O que ainda falta bastante é permitir que tudo isso ande de mãos dadas, falando um mesmo idioma que faça sentido, seja prático e, de fato, melhore a vida das pessoas.

    Se a gente não parar urgentemente pra pensar nisso, de verdade, é possível que a gente siga produzindo iniciativas maravilhosas isoladas em pequenas ilhas de excelência num grande arquipélago tecnológico que não representa terra firme pra ninguém. Pensa nisso!

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