“Maldade, sadismo, xenofobia”, diz pai de estudante de medicina morto por PMs
Julio Cesar Acosta disse que os policiais se negaram a dar detalhes que poderiam ajudar na cirurgia do filho
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Jovem foi baleado por um policial militar dentro de um hotel em São Paulo • Reprodução/Redes sociais
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Momento seguinte do disparo que vitimou o estudante. • Reprodução
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Marco Aurélio Cardenas Acosta tinha 22 anos. • Reprodução/Redes sociais
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Além de cursar medicina, Marco Aurélio se descrevia em suas redes sociais como "Mestre de Cerimônia" e "Compositor". • Reprodução/Redes sociais
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Marco Aurélio Cardenas Acosta conhecido como “Bilau”. • Reprodução/Redes sociais
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"Bilau" sendo escalado para uma partida de futsal da Anhembi Morumbi. • Reprodução/Redes sociais
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Médico Julio César Acosta em foto com o filho, o estudante de medicina Marco Aurélio, baleado por um policial militar na zona Sul de São Paulo • Reprodução/Redes Sociais
“Foi o pior dia da minha vida, desde a madrugada quando me chamaram e avisaram que meu filho tinha sido baleado”. Assim o médico Julio César Acosta começou a conversa com a CNN cerca de 15 horas depois de perder um dos três filhos, Marco Aurélio, baleado por um policial militar na zona Sul de São Paulo.
Veja aqui o momento em que policial militar atira contra Marco Aurélio
Julio e a esposa, mãe de Marco, são peruanos e naturalizaram-se brasileiros há cerca de trinta anos, quando mudaram para o Brasil. Marco Aurélio estava no quinto ano de Medicina na Universidade Anhembi Morumbi e morreu depois de ser baleado por um PM na madrugada da última quarta-feira (20). Ele é o mais novo entre os três filhos do casal.
Entenda o que se sabe sobre o caso do estudante morto pela PM de SP
A versão da PM, única revelada até agora, é de que os policiais foram atender um chamado no hotel e encontraram Marco “bastante alterado” e “agressivo” e que ele teria resistido à abordagem policial, “entrando em vias de fato com a equipe”. Eles dizem ainda que entraram em confronto com o jovem, que tentou pegar a arma de um dos policiais, quando foi baleado.
As imagens de uma câmera de segurança do hotel mostram dois PMs indo atrás do rapaz. Um deles segura uma pistola com a mão direita e pega Marco pelo braço com a mão esquerda. O jovem então consegue se desvencilhar.
Outro policial chega e tenta chutar o rapaz, que empurra a perna do policial, que cai no chão. Nesse momento vem o disparo que acerta o estudante de medicina, que aparece sem camisa na gravação. A cena tem menos de trinta segundos e, por ela, não é possível entender o motivo da briga.
“Ninguém me tira [a ideia] de que esses policiais covardes agiram por maldade, sadismo, xenofobia, preconceito, por meu filho ser um pouquinho baixo, de tez um pouquinho morena, e eles devem ter achado que era um estrangeiro, com certeza”, afirmou Julio Cesar à CNN.
“Meu filho está no quinto ano de medicina, amanhã no congresso de clínica médica em Barueri, ele tinha um tema para apresentar. Estava empolgado, alegre, só faltava um ano e tiraram a vida dele”, completou o pai do estudante que fez 23 anos em outubro.
A Secretaria de Segurança Pública (SSP) afirmou que “as polícias Civil e Militar apuram as circunstâncias da morte” e disse que “os policiais envolvidos na ocorrência prestaram depoimento, foram indiciados em inquérito e permanecerão afastados das atividades operacionais até a conclusão das apurações”. Marco foi socorrido ao hospital Ipiranga, mas não resistiu.
“Cheguei a ver meu filho na emergência, chocado, pedindo ajuda, pedindo que eu, seu pai, auxiliasse a ele. Depois, quando fui reclamar a eles, apareceram 15, 20, policiais com quatro carros, cada vez que eu queria falar algo, todos seguravam as armas, como se eu fosse um Rambo, e ninguém me ajudava”, contou o pai do jovem.
“Depois apareceu um capitão dizendo uma versão oficial de que meu filho havia começado, que meu filho brigou, que foi legítima defesa. E eu falei: como é possível, se meu filho é estudante de medicina, ele é um bom rapaz, sempre joga bola comigo, para sempre em minha casa… E depois, às sete horas, quando morre meu filho, somem todos os oficiais, ninguém mais me dá a cara. Fico sozinho no hospital para que me dessem um [atestado] provisório de óbito”, afirmou.
O pai reclama ainda que os policiais não deram informações sobre a distância da arma para o filho no momento do tiro, o modelo da arma ou a trajetória da bala, o que poderia auxiliar a cirurgia, segundo ele.
O escritório de advocacia que defende os policiais militares afirmou que “já iniciou a atuação para comprovar a legalidade na ação dos PMs”. A CNN questionou os advogados sobre o caso e aguarda retorno.
“Eu sei que eu não vou poder recuperar meu filho nunca, mas [eu queria] pelo menos justiça, honra, um pedido de perdão, o reconhecimento da gravidade do que aconteceu, um conforto”, diz o pai de Marco Antonio.