Análise: posicionamento do Itamaraty evidencia dilema sobre Maduro
Nota condena perseguições a opositores, mas enaltece o que chamou de "gestos de distensão" do venezuelano
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A nota divulgada pelo Itamaraty neste sábado (11), em que condena a perseguição do presidente Nicolás Maduro a opositores na Venezuela, evidencia um dilema vivido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Enquanto ministros e até o vice-presidente Geraldo Alckmin vieram a público para criticar e chamar o regime venezuelano de ditatorial, o petista silenciou. Preferiu deixar a diplomacia falar pelo governo.
No texto divulgado neste sábado (11), um dia depois de Maduro assumir seu terceiro mandato, o Ministério de Relações Exteriores afirma que “deplora” os recentes episódios de prisões e ameaças. Ao mesmo tempo, diz reconhecer o que chamou de “gestos de distensão” do chavista.
“Embora reconheçamos os gestos de distensão pelo governo Maduro – como a liberação de 1.500 detidos nos últimos meses e a reabertura do Escritório do Alto Comissário de Direitos Humanos das Nações Unidas em Caracas, o governo brasileiro deplora os recentes episódios de prisões, de ameaças e de perseguição a opositores políticos”, diz o texto.
O argumento está alinhado com a forma como Lula se posicionou nas poucas vezes em que o fez desde as eleições no país vizinho. O presidente nunca foi categórico. Cobra do país vizinho a divulgação das atas para confirmar a eleição de Maduro, mas, logo após o suposto resultado ser divulgado, chegou a dizer que não via “nada anormal” na eleição de Maduro.
“Vejo a imprensa brasileira tratando como se fosse a Terceira Guerra Mundial. Não tem nada de anormal. Teve uma eleição, teve uma pessoa que disse que teve 51%, teve uma pessoa que disse que teve 40 e pouco”, disse ainda na primeira fala sobre o assunto, em julho de 2024.
A decisão de manter o envio da embaixadora em Caracas, Glivânia Maria de Oliveira, para a posse do chavista também serviu de combustível para os críticos sobre a postura do presidente. Assim como a presença de integrantes do PT na cerimônia.
O governo argumenta que é necessário manter uma ponte para o diálogo. Sob Lula, o Planalto descarta repetir o ex-presidente Jair Bolsonaro e romper as com a Venezuela.
Bolsonaristas, no entanto, apontam contradições. Ressaltam que, apesar do atual distanciamento, Lula e Maduro são aliados históricos. Não por menos, o venezuelano foi recebido com honras de chefe de Estado no Palácio do Planalto em maio de 2023.
Fato é que as relações diplomáticas estão esfriadas, sem reuniões políticas de alto escalão. Os contatos sendo feitos pela embaixadora, mas com distanciamento de Brasília. Nem Lula, nem o chanceler Mauro Vieira, ou mesmo o assessor internacional Celso Amorim, tem buscado diretamente o diálogo.
Em outubro, após a Veneuzela ser vetada do Brics, Maduro convocou seu embaixador no Brasil. Disse que era uma resposta contra a “agressão constante” que, segundo a chancelaria venezuelana, tem minado as relações diplomáticas entre os países.
O governo Lula, ao lado da Colômbia, reivindicou o posto de mediador por uma solução para o processo Eleitoral na Venezuela. As notas divulgadas desde a eleição em julho e as tentativas de abrir uma mesa de negociação, porém, falharam até aqui. Entre diplomatas, poucos acreditam numa mudança de postura de Maduro.
A Lula resta acreditar que ainda é possível encontrar uma solução e lidar com as cobranças internas sobre sua postura, considerada pouco enérgica com o antigo aliado.