Em trend do Oscar, direita fala sobre passaporte de Eduardo Bolsonaro
Levantamento da Palver em grupos de WhatsApp mostra alta de mensagens sobre pedido de apreensão no período em que Ainda Estou Aqui venceu prêmio inédito
Monitoramento da empresa Palver em grupos abertos de WhatsApp identificou um forte engajamento de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em mensagens que têm como assunto uma notícia-crime de parlamentares do PT que poderia levar a uma eventual apreensão do passaporte do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
O compartilhamento desses conteúdos cresceu no mesmo período em que esse campo político evitava tratar de outro assunto que dominou as postagens de brasileiros em plataformas digitais: a disputa e a conquista inédita do Oscar pelo filme Ainda Estou Aqui, que retrata a trajetória de Eunice Paiva e o impacto em sua família provocado pelo desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva, morto em 1971 sob custódia do Estado durante a ditadura militar.
Dados do monitoramento indicam uma alta de 1000% no compartilhamento de mensagens sobre o passaporte de Eduardo Bolsonaro em um período de três dias, justamente no fim de semana da disputa pelo mais famoso prêmio da indústria cinematográfica.
O ápice foi atingido na segunda-feira, dia seguinte à entrega do Oscar ao diretor Walter Salles pelo prêmio de melhor filme internacional, com 107 mensagens sobre uma eventual apreensão do passaporte de Eduardo Bolsonaro a cada 100 mil conteúdos trocados.
É um volume quase 10 vezes maior que o registrado no dia 28, após notícias de que os deputados Lindbergh Farias (RJ), líder do PT na Câmara, e Rogério Correia (PT-MG), pediram que Eduardo Bolsonaro seja investigado criminalmente por articular reações ao Supremo Tribunal Federal junto a políticos americanos – no sábado (1o), o ministro do STF Alexandre de Moraes deu prazo de cinco dias para que a Procuradoria-Geral da República analise o caso. Ainda não há parecer nem decisão a respeito, mas o pedido dos deputados petistas já é tratado pelos bolsonaristas como “perseguição política do Judiciário”.
O monitoramento também detectou uma mobilização dos bolsonaristas para pressionar o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a se posicionar sobre o caso.
No domingo (2), dia da premiação do Oscar, o próprio Jair Bolsonaro usou as redes para criticar a eventual apreensão do documento do filho e que essa medida seria um subterfúgio para evitar que Eduardo assuma o comando da Comissão de Relações Exteriores da Câmara – o PT articula com outros partidos para que o cargo siga sob o comando de um integrante do PSDB, como ocorreu nos últimos dois anos.
A vitória de Ainda Estou Aqui foi celebrada nas redes por lideranças políticas de espectros políticos variados e por autoridades do Judiciário, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT); os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP); e o presidente do STF, Luís Roberto Barroso. Governadores próximos a Bolsonaro, como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ratinho Junior (PSD-PR) e Romeu Zema (Novo-MG), não fizeram manifestações públicas a respeito da conquista inédita do cinema brasileiro.