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    Américo Martins
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    Américo Martins

    Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

    No Brasil, COP30 quer dar protagonismo inédito a temas econômicos

    CNN conversou com exclusividade com os três principais líderes da cúpula do clima e todos disseram que é preciso dar um peso muito maior às discussões sobre economia e desenvolvimento para combater a crise climática global

    Os principais líderes da COP30 querem furar a bolha ambiental e dar um protagonismo inédito aos temas ligados à economia e ao desenvolvimento social durante as discussões na cúpula do clima, que será realizada em novembro, em Belém.

    Este blog conversou com exclusividade com os três principais líderes da COP30 e eles foram unânimes em dizer que o evento precisa ir muito além dos debates com foco estritamente ambiental, implementando de maneira mais efetiva e decisiva propostas de mudanças econômicas e sociais que ajudem a combater a crise climática.

    As declarações mostram um alinhamento entre esses líderes que será muito importante para o sucesso do evento. São eles: o presidente da COP30, Embaixador André Correa do Lago; a CEO da COP30, Ana Toni; e o chefe da UNFCCC (a Convenção Quadro de Combate às Mudanças Climáticas da ONU), Simon Stiell.

    Os três também defenderam de forma incisiva o multilateralismo, afirmando que a solução para os problemas climáticos requer necessariamente a ajuda e a cooperação de todos os países e muitos agentes econômicos.

    Eles lembram, claro, que nenhum país está a salvo das mudanças climáticas, independentemente da posição política de seus governos ou do seu poderio econômico.

    Essa defesa é importante especialmente num momento em que o governo do presidente Donald Trump retirou os Estados Unidos da Acordo de Paris, a principal convenção internacional da área.

    Envolvimento do setor privado e ministros das finanças

    Ana Toni afirmou à CNN que o sucesso de várias COPs anteriores se deveu à liderança de presidentes e ministros do meio ambiente de vários países, comprometidos com o tema. Mas agora, diz ela, é preciso ampliar o leque dos responsáveis pelas decisões e envolver ministros das finanças, presidentes de bancos centrais, o setor privado e outros agentes econômicos importantes.

    Combater a crise climática requer, afinal de contas, muitas mudanças sociais e econômicas que afetarão praticamente todos os setores da sociedade – um fato que não parece ser totalmente compreendido por muita gente, inclusive os políticos responsáveis por boa parte das decisões na área.

    “O tema de mudança do clima, para além de ser um tema ambiental muito importante, também é um tema de desenvolvimento social e econômico. E para a gente avançar nas COPs hoje em dia, a gente tem que ter um forte debate econômico e de desenvolvimento. Aí sim, liderados também pelos ministros de economia e finanças, para mostrar como é que mudança climática entra nos planos de desenvolvimento dos países”, disse ela.

    Ana Toni propõe uma forte parceria entre os ministérios de finanças, ministérios de meio ambiente, setor privado, governos subnacionais e países nessas discussões.

    “É isso que vai fazer com que as COPs tenham sucesso, porque a gente tem agora que partir para a implementação e quando a gente fala de implementação, esses atores serão fundamentais nas COPs e principalmente na COP30, em Belém, no final do ano”, disse ela.

    O Embaixador Correa do Lago também vem defendendo essa linha desde antes de ser confirmado como presidente da COP.

    Ele disse a este blog que já vem trabalhando para esse envolvimento direto de ministros de finanças, setor privado e outros agentes.

    O embaixador lembra que a COP envolve centenas de reuniões, debates e discussões que são realizadas muito antes do evento em Belém, que vai acontecer apenas em novembro.

    Em outras palavras, diz ele, as soluções começam a ser encontradas já.

    “Nós recebemos em Baku (durante a COP29), um mandato para ver quais são os obstáculos e quais são as possibilidades para aumentar os recursos para o cumprimento das metas (de combate às mudanças climáticas) dos países em desenvolvimento. A gente tem que desenvolver esse plano ao longo do ano e isso envolve evidentemente a economia de um modo geral, os investimentos de um modo geral”, disse ele.

    Por fim, Simon Stiell também seguiu a mesma linha em conversa com o blog.

    “O Brasil já está dando passos importantes (na presidência da COP30), desde quando assumiu a presidência do G20 (no ano passado). A presidência do Brasil conectou fortemente as questões das mundaças climáticas e de financiamento. E fazer essa conexão é crucial” no combate às mudanças climáticas, disse ele.

    Carta da presidência da COP

    Essa conexão foi explicitada na carta da presidência da COP ao mundo, divulgada há poucas semanas.

    O documento defende justamente o multilateralismo e a necessidade de se trazer as decisões econômicas para o centro do debate.

    “Embora marcada pela desigualdade e vulnerável aos riscos climáticos, nossa arquitetura financeira conta com sofisticação adquirida em crises anteriores, podendo ser reformada e aprimorada. A COP30 pode ser o momento em que alinharemos os fluxos financeiros internacionais e integraremos as transições digital e climática em uma única nova revolução industrial que seja consciente em relação ao clima”, disse o documento.

    Os três líderes dizem ainda que há recursos suficientes para financiar e promover as mudanças necessárias. Mas, para isso, é necessário também existir a vontade política de tomar as decisões necessárias.

    Como afirma a própria carta da presidência da COP: “Embora isso possa parecer idealista, a realidade é que há capital global suficiente para fechar a lacuna de investimento global, embora haja barreiras para redirecionar o capital para a ação climática. Os governos, por meio de financiamento público e sinais claros para os investidores, são fundamentais para reduzir essas barreiras. Precisamos usar da melhor maneira possível a arquitetura financeira multilateral, remover as barreiras e resolver os entraves enfrentados pelos países em desenvolvimento no financiamento da ação climática, incluindo altos custos de capital, espaço fiscal limitado, níveis de dívida insustentáveis, altos custos de transação e condicionalidades para acessar o financiamento climático”.

    E conclui: “precisamos avançar na integração do clima aos investimentos e ao financiamento”.

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