Análise: por que o Reino Unido resiste à onda de extrema direita na Europa
País deve eleger o Partido Trabalhista, de centro-esquerda, nas eleições gerais de quinta-feira (4)


Três fatores ajudam a explicar por que o Reino Unido muito provavelmente vai eleger o Partido Trabalhista, de centro-esquerda, nas eleições gerais de quinta-feira (4), resistindo ao avanço da onda de extrema direita que vem tomando conta de vários países da Europa – como a França, a Itália e a Alemanha, por exemplo.
O primeiro deles é a fadiga dos britânicos com várias políticas fracassadas implementadas durante os 14 anos seguidos de governos do Partido Conservador, de direita.
Desde 2010, quando chegaram ao poder numa aliança com o Partido Liberal Democrata, os conservadores tentaram implantar uma política de austeridade econômica e corte de gastos.
Mal implementada, a política resultou em um crescimento médio da economia de apenas 1,2% no período.
Um resultado medíocre, menor do que os 2,3% em média registrados pelo país desde 1973, o ano da crise do petróleo, até 2010 – segundo dados oficiais do ONS (Office for National Statistics, o IBGE britânico).
A austeridade também levou a investimentos menores do que o necessário nos orçamentos para educação, saúde e governos locais.
O resultado foi terrível, por exemplo, no National Health Service (NHS), o admirado serviço de saúde pública do país.
As filas para atendimento médico bateram todos os recordes desde a criação do sistema, em 1948, com quase 8 milhões de pessoas atualmente esperando vários meses para conseguir tratamento. Isso num país de 66 milhões de habitantes.
Os conservadores, ao contrário de sua tendência tradicional de liberalismo econômico, aumentaram dramaticamente os impostos das pessoas e das empresas – especialmente no período em que o atual primeiro-ministro, Rishi Sunak, era o ministro da Fazenda (de 2020 a 2022).

Desde a pandemia da Covid-19, os britânicos também passaram a conviver com um custo de vida muito mais alto sem que seus salários acompanhassem o fenômeno. Londres, por exemplo, é uma das cidades mais caras do mundo.
Como resultado, a grande maioria dos eleitores se sente muito mais pobre do que nas décadas passadas.
Pelo lado positivo, os “tories” (como os conservadores são chamados no país) conseguiram manter baixos em termos históricos os índices de desemprego. Atualmente, o desemprego atinge 4.4% dos britânicos.
Instabilidade política e Brexit
O segundo fator é uma pouco comum instabilidade política.
Durante os 14 anos de governo dos “tories”, o Reino Unido teve nada menos do que cinco primeiros-ministros diferentes.
Dois deles chegaram ao poder sem sequer enfrentar eleições gerais, graças às regras políticas específicas do sistema parlamentarista de governo.

Tantas mudanças em pouco tempo são muito raras no país, conhecido no passado por sua estabilidade política.
No entanto, as guerras internas no Partido Conservador entre suas alas liberais e ultranacionalistas criaram essa instabilidade e deixaram os seus próprios primeiros-ministros bem mais fracos para implementar suas políticas.
Por fim, o eleitorado ainda vive a ressaca do Brexit, o movimento que levou o Reino Unido a ser o primeiro país a deixar a União Europeia.
A questão foi provocada pela direita do Partido Conservador, que insistiu num plebiscito que acabou aprovando o Brexit por uma margem muito pequena.
Para piorar, os conservadores fizeram uma má negociação de saída e hoje a maioria do eleitorado se arrepende de ter esnobado o bloco europeu.
Tudo isso ajuda o Partido Trabalhista, liderado por Sir Keir Starmer, um ex-procurador-geral da Inglaterra e do País de Gales, a ter uma vantagem de mais de 20 pontos percentuais nas pesquisas de intenção de voto.
Os trabalhistas prometem muito mais investimento em educação e saúde e uma renegociação com a União Europeia, mas sem qualquer intenção de retornar ao bloco.
O Brexit continua sendo um assunto que gera muita radicalização e polarização, por isso Starmer vai ficar bem longe dele.
Por fim, é preciso também lembrar que a extrema direita também deverá ter um crescimento no número de votos na eleição de quinta-feira.

O partido Reform UK (Reforma no Reino Unido, em tradução livre), ultranacionalista, anti-imigração e anti-islamismo deve roubar muitos votos dos conservadores – mas não deve eleger muitos representantes no Parlamento devido ao sistema de voto distrital puro – que beneficia os partidos maiores.
O descontentamento com a imigração, em especial, é usada pelo Reform UK como sua principal plataforma de campanha – prometendo deportar todos os imigrantes ilegais e aumentar os controles de entrada no Reino Unido.
Mesmo com poucos representantes no Parlamento, o partido de extrema direita promete se transformar na oposição de fato aos trabalhistas.
Os conservadores, por seu lado, poderão amargar o seu pior resultado eleitoral em quase 200 anos de história.